

O Dia Mundial da Poesia comemora-se anualmente a 21 de março. A data foi implementada na 30.ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1999.
Este dia pretende salientar a importância da poesia enquanto manifestação artística comum a toda a Humanidade. Celebra-se também a criatividade, a pluralidade linguística e cultural e promove-se o ensino e declamação da poesia.
A Biblioteca Escolar da Secundária de Nelas desafiou os nossos professores de português. convidando-os a partilharem os seus gostos poéticos.

PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO-
( escolha de Olga Carvalho, Diretora do Agrupamento de escolas de Nelas )
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Poesia dos Outros Eus. Ricardo Reis.
Tenho uma coisa para te contar -
( escolha de Bruno Cardina , professor bibliotecário do agrupamento escolar )
Tenho uma coisa para te entregar,
uma pedra a pôr no chão da rua,
uma lunar presença sob o sol.
Tenho uma coisa para te devolver,
para ficar minha sendo tua,
aquecida no tempo e nestes olhos.
Tenho uma coisa que eu te posso dar
que é o vento a vir atrás do verde
e a dizer azul no teu cabelo.
Pedro Tamen
A Poesia vai acabar - de Manuel António Pina
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje
ao entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.-
Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
O Sorriso -
( escolha de Paula Rebelo )
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade O Outro Nome
Clique aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=c4Iat2bVSxA
Mãe
(escolha de João Rui Sampaio )
A mãe é sempre a última
A última a apagar a luz.
A última a adormecer.
A última a colocar a comida no seu prato e a comer.
A mãe é sempre a última a sair de casa, verificando se não falta nada.
Se está tudo bem.
A mãe é sempre a última a fechar a porta do carro.
A mãe é sempre a última a descansar!
A mãe é sempre a última...
Talvez porque seja sempre a primeira!
A primeira a telefonar.
A primeira a perguntar.
A primeira a chorar.
A primeira a rezar!
Tenho para mim que, sendo a última ou a primeira...
Mãe é a candeia que nunca perde a esperança. Autor Anónimo
O mar dos meus olhos de Sophia de Mello Breyner
( escolha de Irene Santos )
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos. Ficam para além do tempo Como se a maré nunca as levasse Da praia onde foram felizes Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens... Há mulheres que são maré em noites de tardes... e calma
Dizem de Fernando Pessoa
( escolha de Lurdes Figueiredo )
Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.
Por quê
Esperar?
Tudo é
Sonhar.
Rotina de Eugénio de Andrade
( escolha de Margarida Teixeira )
Sei um ninho de Miguel Torga
( escolha de Luís Braguês Sei um ninho
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
a voar.
A Flor da Solidão de Ruy Belo
( escolha de Clotilde Santos )
Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa ( continua )
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro
(ESCOLHA da EQUIPA DA BE)
"Olá, guardador de rebanhos
,Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
Liberdade de Fernando Pessoa
( escolha de Ana Paula Neves )
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa
,De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia,
a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca... Fernando Pessoa
FIM de Mário Sá Carneiro
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!...
