Às crianças
do Agrupamento de Escolas D. Carlos I

O que vos vou contar aconteceu há mais de cem anos, em Portugal...
Carlos, o menino que se tornou rei, o penúltimo de Portugal, cedo revelou grande inteligência e curiosidade por tudo o que o rodeava.
Queria descobrir os segredos da Natureza e saber tudo sobre os misteriosos animais que habitavam os oceanos.
Em Cascais, onde passava algum tempo com a família junto ao mar, Carlos gostava de ir até à praia e ficar a observar as poças de maré e as aves que por ali pairavam: gaivotas intrometidas, pilritos atrevidos, andorinhas do mar desafiadoras...
Depois, quando regressava a casa, pintava tudo o que tinha visto: aves, barcos, o mar, peixes...
Família e amigos, todos admiravam o pequeno príncipe pintor.
Quando cresceu e casou, D. Carlos, já rei, nunca deixou de pintar. Pintava em todo o lado: no campo, na praia, a bordo do iate D. Amélia...
Descobria sempre novos motivos para as suas telas.
Pintar era o seu momento: pegava no cavalete, nas aguarelas e pincéis e esquecia-se do tempo ...
Sua esposa, D. Amélia, que também gostava de pintar, era a sua maior admiradora.
- Que pássaro tão belo que o meu rei pintou hoje!
As cores das suas plumas
são tão reais!
O rei adorava elogios, sobretudo porque conseguia surpreender até aqueles que o achavam descuidado como governante, sempre mais preocupado com as artes, a oceanografia e as viagens do que com as obrigações do reino.
Um dia, estando o rei pensativo a olhar o mar, buscando inspiração, com o cabo do pincel entre os lábios, um menino acercou-se dele e pediu:
- Pinte-me uma garça real, por favor, senhor rei!
O rei olhou longamente para o menino, surpreendido com o atrevimento.
- Por estes lados não há garças, muito menos reais! - Respondeu-lhe com voz de rei.
- Mas eu não sei como é uma garça e o senhor rei sabe como ela é! - Retorquiu o menino, determinado.
O rei ficou calado, incrédulo, mas, ao fim de um mudo suspiro, e semicerrando as pálpebras, deixou deslizar o pincel sobre a tela, molhando-o de vez em quando na paleta de cores.
O silêncio do rei e do menino era constrangedor, apenas quebrado pelo marulhar das ondas na praia ou pelo chilrear dos pássaros nas árvores do jardim em que se encontravam.
Um pouco de tempo depois, o rei deu dois passos atrás e contemplou o seu trabalho, segurando entre os dedos o cabo do pincel
e encostando-o aos
lábios num ritual.
Sem desviar o olhar da
tela, o rei perguntou
ao menino:
- Gostas?
- Sim...- Disse baixinho o menino, hesitante.
E depois de pensar uns segundos em silêncio, o garoto sussurrou, talvez a medo, talvez esperançado:
- Falta-lhe uma coisa importante...
- O quê? - Impacientou-se o rei.
- O coração... - Disse o menino num fio de som.
- Que disparate! O coração não se vê, está dentro do peito! - Mas a voz do rei pareceu adoçar no fim, complacente.
- Sim... Mas só o coração deixa sentir a alma da garça. E eu não a sinto... - A voz do menino soava a tristeza.
O rei ficou de novo pensativo, em silêncio, olhando o horizonte...
Inesperadamente, deixando o rei sem
ação, o menino arrancou-lhe o pincel das mãos, embebeu-o de vermelho e pintou um singelo coração no olho da garça.

- Assim está melhor! - Resplandeceu o menino.
E o rei, saindo da sua surpresa, rasgou um vagaroso sorriso debaixo do seu bigode de bicos retorcidos para o céu.
Texto: Maria Calado
Ilustrações: Alunos do Núcleo de Consolidação C com Desenvolvimento da E.B. da Várzea de Sintra, maio de 2023
Edição: Maria Calado, julho 2023, Sintra
