



Dedicatória: agradeço à minha imaginação por me ter ajudado a fazer esta história.
Professores: Ricardo Moreira e José Luís
Autora: Sofia Charraz

Deus os Abençoe
Estava a trabalhar na fábrica com a minha mãe, quando fomos interrompidos pela agitação que se fazia presente na rua. Quando saí às pressas para ver o que se passava o Senhor João parou-me:
-Festeja Manel, finalmente vamos ser livres- disse-me ele com um grande sorriso amarelo e um ligeiro cheiro a álcool que me fazia vomitar, mas disfarçava para não pensarem que era mal-educado.
Senhor João foi rapidamente engolido pela multidão e eu não consegui perceber as palavras do velho, mas quando a minha mãe se aproximou vinha com lágrimas e sorrisos no rosto e coisa má não podia ser
-Revolução dos militares...Revolução Manel, aí mãezinha que Deus os proteja, que Deus nos dê paz e que o meu marido seja solto- disse-me a minha mãe pronta para começar as suas rezas que levavam horas e horas e que ninguém se atrevia a interromper.
A Dona Maria chegou ao pé da minha mãe e ajoelhou-se.
-Vais ver Bárbara, a P.I.D.E há de soltar o teu marido, e, nós havemos de descobrir quem o meteu atrás das grades- disse Dona Maria ao ouvido da minha mãe.
Quando dei por mim já estavam as duas de mãos dadas com os terços enrolados nos dedos a dizer as rezas todas que passavam pelas pobres cabeças.
-Mãe, vou ver como está a saúde do tio Zé. -disse à minha mãe.
Passado trinta minutos a pé cheguei à casa do meu tio Zé que está mais para lá do que para cá, mas como ainda não morreu tenho de o visitar todos os dias, não vão as vizinhas dizer que deixámos o velho morrer sozinho.
Gosto muito do meu tio, mas desde que o meu pai foi capturado pela P.I.D.E por se ter encontrado com os amigos na taberna do marido da filha da Dona Teresa que ele tem andado muito estranho, mas não percebo muito bem o porquê. É velhote, coitado!
-TIO ZÉ! Ó TIO ZÉ, venha abrir a porta, é o Manel- gritei com muita força.
Lá ao fundo da casa avistei o meu tio a andar muito devagarinho e quando me ouviu assustou-se.
-Vou já Manel- falou ele baixinho.
Abriu-me a porta e fomos para a sala, perguntei-lhe:
-Tio como tem passado? Precisa de medicamentos da farmácia? - perguntei-lhe eu enquanto arrumava minimamente a casa.
- Não Manel, a vizinha tem me comprado algumas coisas, obrigada.
O meu tio era reformado, trabalhou a vida inteira na sapataria do pai, mas de lá para cá foi perdendo alguns sentidos e foi despedido. Numa noite de taberna, andou à porrada e ficou cego, nunca descobrimos quem lhe bateu, mas ele também nunca nos contou.
-Tio, já viu a multidão na rua? É uma revolução dos militares, por causa da ditadura. -disse-lhe eu
-Não Manel e nem quero saber. Vai para casa que já se está a fazer tarde. - disse-me o meu tio enquanto me empurrava porta fora.
De volta a casa, passei primeiro pelo Vítor dos tomates já que a minha mãe queria fazer um gaspacho para festejar a revolução.
-Manel despacha-te. Tenho de ir ver da minha mãezinha a Lisboa, deve estar uma pilha de nervos sem perceber porque é que está tanta gente na rua. -disse-me o Vítor enquanto acabava de arrumar algumas caixas na porta do fundo.
-Sim, só preciso de alguns tomates fresquinhos, podes ir buscar ao armazém? - perguntei-lhe, já que sabia que os melhores tomates eram os que estavam no armazém.
Enquanto o Vítor foi buscar os tomates, comecei a dar atenção à rádio, que passava a música de Zeca Afonso, quando foi interrompida por militares a mandarem as pessoas para a rua para os ajudar a pedir liberdade.
-Aqui está rapaz, três escudos.
Paguei ao Vítor e corri para casa com uma ideia brilhante.
-MÃE, MÃE, Ó MÃE. - gritei antes mesmo de meter um pé dentro de casa.
-O que é rapaz, que aflição- ralhou a minha mãe.
-Podemos ir a Lisboa? Ajudar as pessoas, pedir por liberdade e principalmente fazer a diferença para o caso do pai, por favor mãe- implorei-lhe ajoelhado com a maior das esperanças.
-Claro que não Manel, e o teu tio? Sabes que ele já não bate muito bem e é irmão do teu pai.
-Podíamos deixar o tio com a Dona Maria, ele até ia ficar feliz de estarmos a ajudar o irmão.
-Não Manel, não a quero chatear, problemas já ela tem para dar e para vender.
-Então vou agora mesmo à casa do tio ver qual é a opinião dele-disse eu já pronto para sair novamente.
-Tá bem, mas não demores, e depois ajudas-me a meter a mesa- disse-me a minha mãe, mas eu já tinha saído de casa e nem lhe dei uma resposta de volta.
Ia a caminho de casa sempre a sorrir para um lado e para o outro por ver gente tão feliz a lutar pela liberdade que nunca tiveram.
Quando cheguei à casa do meu tio, estranhei, já que estava tudo apagado, eu sei que ele já é velho, mas deitar-se tão cedo nunca se tinha deitado.
Para não o fazer levantar entrei pela janela sem fazer barulho, fui ver ao quarto dele, não estava ninguém e a cama estava exatamente como eu a tinha deixado, fui à casa de banho, nada, fui à sala, nada, fui à cozinha nada também, sentei-me a pensar se o meu tio me tinha dito se ia a algum lado, mas nada que ele tenha mencionado dizia que ele iria sair.
Olhei para a mesa da cozinha e estava lá uma carta, tinha o nome do meu tio, por isso agarrei na carta e comecei a ler:
“Querido sobrinho, enquanto estás a ler isto provavelmente já devo ter cometido um grande erro, que não é o melhor para todos mas foi o que achei mais acertado para a minha alma. Sei que me vais odiar por ter cometido um grande erro pelo qual me arrependo amargamente e fazia de tudo para não ter acontecido o que aconteceu naquela noite, mas eles obrigaram-me e eu tentei fazer de tudo para que não o magoassem lá, mas eles falharam comigo e torturam aquele grande homem que eu brincava todos os dias no quintal da tua avó.”
Naquele momento já estava com lágrimas nos olhos, sem saber o que fazer e se devia continuar a ler a carta ou não, mas continuei.
“Não deves estar a perceber até agora o que se está a passar e nem eu sei ao certo o que me passa pela cabeça enquanto te escrevo esta carta. Fui eu o responsável pela perseguição ao teu pai, meu irmão, e pela prisão dele. Eles obrigaram-me e prometeram-me que não lhe mexiam em um sequer fio de cabelo, por isso, fiquei mais descansado, mas quando me contaram que ele todos os dias era torturado de maneiras cruéis para abrir a boca o meu mundo caiu e vivi numa angústia total ao pensar que podia ser eu o responsável pela morte do meu querido irmão, pela pessoa que me ajudou em bons e maus bocados, pela pessoa que me acalmava nos pesadelos e me ensinava a ler, apenas por termos ideias e acreditarmos em coisas distintas, culpei-me todos os dias por lhe ter feito isto e por vos ter feito passar por tanto sofrimento, por isso acho melhor acabar com tudo. Espero realmente sobrinho que um dia me perdoes por todo o mal
causado e que te recordes de mim não apenas pelo mal que te fiz, mas sim pelas coisas boas, ensinei-te a ler porque sabia que o meu fim ia ser trágico, mas precisava de te deixar com uma recordação minha. Cuida da tua mãe e diz-lhe o quanto sinto pelo mal que vos fiz e o quanto me arrependi todos os dias. Este será um adeus Manel, espero que quando cresceres não faças tantas asneiras como o teu tio fez e reza por mim para que tenha um lugar no céu.”
José Manel, 25/04/1974
Não acreditei no que li, o meu tio, uma das pessoas que mais admirava tinha sido o responsável pelo sofrimento da minha família.
Ia para casa contar tudo à minha mãe, de como o meu tio nos tinha traído e de como tinha fugido por ser um covarde. Fui em direção ao quintal buscar o pássaro do meu tio, mas quando cheguei vi uma das piores coisas da minha vida, que não me irei esquecer nem que viva trezentas vidas, o meu tio não tinha fugido, o meu tio estava à minha frente pendurado por uma corda ao pescoço, morto.
Corri rapidamente para ao pé dele, ajoelhei-me e comecei a chorar, não sabia se ficava ali ou se ia chamar alguém. Passado alguns minutos corri rapidamente para casa em direção à minha mãe.
-MÃE! MÃE, AJUDA-ME, TENS DE VIR COMIGO AGORA. -gritei eu à minha mãe enquanto lágrimas me escorriam pelo rosto.
-O que foi Manel? O que aconteceu? -perguntou-me a minha mãe muito aflita.
-O tio, mãe, o tio morreu. Ele suicidou-se, está pendurado na laranjeira do quintal.
Corremos os dois em direção à casa do meu tio, as vizinhas já tinham avisado a funerária e os bombeiros. Quando chegamos lá o corpo já estava a ser levado, agarrei na mão do meu tio e disse lhe:
-Perdoo-te tio, por todo o mal que fizeste à nossa família e ao teu próprio irmão. Espero que Deus te guarde um lugar no céu e até breve.
Fui em direção à minha mãe com a carta nas mãos, estendi-lhe a carta.
-O que é isto Manel? - perguntou-me a minha mãe enquanto a Dona Maria a abraçava e lhe dizia que ia ficar tudo bem, quando eu sabia que depois da minha mãe ler aquela carta, nada ia ficar bem
-Uma carta do tio. Lê. -estendi-lhe a carta.
Mal a minha mãe começou a ler, lágrimas dos olhos azuis dela começaram a sair.
-Minha Nossa Senhora de Fátima, traidor miserável. Como é que vamos contar ao teu pai que a culpa disto tudo é do teu tio, que além de culpado está morto. O teu pai não vai aguentar. -disse a minha mãe, agarrada aos braços da Dona Maria, enquanto incontáveis lágrimas rolavam pela cara dela.
-Nós vamos resolver isto tudo mãe, juntos. - disse à minha mãe de uma forma que a fizesse sentir segura.
-Agora vamos para casa, mãe, já se faz tarde. -agradeci à Dona Maria e puxei a minha mãe para os meus braços.
Enquanto nos íamos afastando daquela casa, ao fundo consegui ouvir a Dona Maria a conversar com o Vítor dos Tomates:
-Pobre família, o que era para ter sido uma inofensiva revolução para uns, virou um trágico fim para outros, Deus os abençoe.
Sofia Charraz, Nº18, T8ºA
