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Título: Bullying
Autores:Alunos do 6ºB do Agrupamento de Escolas Dr. António Augusto Louro e alunos do 6ºA do
Agrupamento de Escolas Pedro Eanes Lobato
Ilustração: Pedro Fernandes (6.º B)
Professoras responsáveis: Maria José Amador
Alcina Soares
Andreia Sampaio
Junho de 2015

Numa terça feira à tarde, um dia muito chuvoso, ali estava eu, Mafalda, no bar da
escola sentada a lanchar quando de repente apareceu um grupo de rapazes. Ao
repararem em mim, começaram a soltar gargalhadas e comecei a sentir-me
insegura.
Nesse grupo estava o Gonçalo, o rapaz mais giro da escola! A sua figura
contrastava em tudo com a minha: uma rapariga excessivamente magra, com
aparelho e óculos circulares. Será que algum dia ele ia reparar em mim?
No dia seguinte, estava a passear pelo descampado, nas traseiras da escola e
ouvi um choro. Fui ver o que se passava e encontrei o Gonçalo. Quando reparou em
mim tentou disfarçar, mas percebi que estava em baixo e tentei ajudá-lo.
Conversando com ele percebi que também tinha sofrido de bullying quando era
mais novo. Contou-me que era um excelente aluno e gozavam com ele por isso.
Certo dia entrara no corta-mato da escola e ficara em 1.º lugar. O grupo que goza
comigo (e que também gozava com ele), ofereceu-lhe um lugar no grupo. E sem
hesitar ele aceitou, sem pensar duas vezes, aliás nem pensou uma.



Compreendi a posição do Gonçalo e passámos a ser amigos e a
encontrar- -nos várias vezes, sem o seu grupo saber.
Passados uns dias, houve um teste e o Gonçalo teve boa nota. No
intervalo, o grupo dos bullies foi falar com ele e viu-o comigo. Depois
chamaram-no e disseram:
- Ou paras de ter boas notas e largas aquela “totó”, ou sais do
nosso grupo!
- Mas isso é injusto, ela é minha amiga e é um ser humano tal
como nós!
- Não nos interessa. Tens dois dias para pensar no assunto.
O Gonçalo veio falar comigo e disse-me que se continuasse a
ser meu amigo ele saía do grupo. Eu fiquei a pensar, sabia que se
assim fosse ele ia sofrer de bullying outra vez.
- Faz o que achares melhor, eu não quero causar-te problemas. -
disse-lhe eu.
- Mas eu não quero perder a tua amizade, pois foste a única
amiga de verdade que alguma vez tive! – disse-me ele
determinadamente.
Depois de pensar inúmeras vezes, ele escolheu continuar a sua
amizade comigo.

Passados alguns dias, os bullies ameaçaram-me, dizendo:
- Se não terminas essa tua amizade com o Gonçalo, vamos
vingar-nos de ti!
Ignorei esta ameaça e virei-lhes as costas.
Os dias passaram até que, numa sexta-feira, os bullies
encontraram-me no cimo das escadas e, sem nada dizer,
empurraram-me. Enquanto caía conseguia ouvir as suas
gargalhadas.
Uma rapariga que passava por ali viu-me deitada no chão e
dirigiu-se a mim. Quando lá chegou perguntou-me se estava tudo
bem, mas eu estava inconsciente logo, não respondi. De seguida ela
chamou a ambulância.
No hospital, já consciente, um médico veio ter comigo e disse-
me que a queda não tinha sido muito grave e que apenas tinha
torcido o pé. Muito descontraidamente, o médico disse-me que devia
ter mais cuidado ao descer as escadas na escola. Eu sorri mas
pensei: “Se o doutor soubesse o que realmente aconteceu, ficaria
preocupado.”

Na sala de aula, a professora estava a fazer a chamada quando chamou
por “Mafalda”, mas ninguém respondeu. Pouco depois apareceu uma
funcionária a dizer que eu não estava na aula porque tinha caído das escadas
e estava no hospital. O Gonçalo ficou muito preocupado e percebeu logo
quem me tinha empurrado.
Ficou preocupado, porque pensou que quando eu saísse do hospital, eles
voltariam a fazer-me alguma coisa.
Foi falar com os bullies e perguntou-lhes:
-O que fizeram à minha amiga? Seja o que for, ela não tem culpa que eu
não queira ficar no vosso grupo!
-Claro que tem culpa! Por causa dela tu já não queres ser do nosso grupo
e por isso vamo-nos vingar! Quem entra no nosso grupo jamis pode sair dele,
percebes?
Uns dias mais tarde, regressei à escola, mas, quando lá cheguei, o meu
amigo estava muito preocupado comigo e comecei a ficar assustada.



Não aguentei mais e tive de lhe perguntar o que se passava para
o tentar ajudar. Então perguntei-lhe:
- O que se passa contigo para estares assim?
Ele não respondeu, ficou em pânico e eu, ao vê-lo assim, fiquei
assustada, sem saber o que fazer ou dizer. Só no final do dia, quando
as aulas acabaram, o Gonçalo contou-me o que os bullies lhe tinham
dito.
Como é óbvio, fiquei com medo e a partir daí tentei evitá-lo, a ele
e aos bullies.
Um dia, quando ia para as aulas, vi os bullies ao virar da esquina
e por isso tentei esconder-me atrás de uns carros que estavam
estacionados ao pé de mim, mas um deles por azar viu-me e gritou:
- Olha ali a totózinha!
E do outro lado o chefe daquele medonho grupinho de bullies
gritou:
- É agora ou nunca! Vamos dar-lhe uma lição que tão cedo não se
vai esquecer! - disse ele, com uma voz maléfica e cavernosa.
Senti-me tonta, e vi-os a correr na minha direção. A certa altura
comecei a ver tudo desfocado, parecia pronta a cair para o lado e, de
repente, “apagou-se a luz”. Tinha desmaiado devido aos socos e ao
medo que sentia.

Quando acordei senti o corpo dorido. Levei a mão à cara e estava
a escorrer sangue. Voltei a fechar os olhos e quando acordei estava
outra vez naquela cama de hospital onde tinha estado há alguns dias.
De repente entrou o médico no quarto do hospital:
- Então, menina Mafalda, sente-se melhor?
- Sim doutor, mas o que é que me aconteceu?
- Não temos bem a certeza mas achamos que foste vítima de
bullying.
- Pois já suspeitava… - sussurrei com um ar triste.
-Então, Mafalda, diz-me o que se passa.
- Bem doutor, a verdade é que eu estava a sair da escola quando
um grupo de rapazes, que me costumam perseguir, me atacou e só
me lembro de sentir o sangue na minha cara e de ter desmaiado. Não
sou só eu que sofro com o bullying. O meu amigo Gonçalo também é
uma vítima daqueles rapazes.



-Bem Mafalda, vamos fazer o seguinte, vais dar-me o número de
telefone do Gonçalo e depois falamos novamente, está bem?
-Sim, doutor, mas tenha calma, porque ele, ultimamente, tem
andado muito nervoso.
E assim foi. Além de contactar com o Gonçalo, o médico
contactou também com a polícia, com a diretora da minha escola e
com os nossos pais. Para minha surpresa no dia em que tive alta,
disseram-me para me dirigir a uma sala onde houve uma reunião
importante para revelar quem eram os agressores.

Os bullies foram chamados à esquadra, juntamente com os seus
pais, e foi decidido que os rapazes teriam de nos pedir desculpa,
nunca mais nos poderiam tocar e seriam obrigados a fazer trabalho
comunitário durante um ano.
Eu e o Gonçalo fomos acompanhados por um psicólogo e os
rapazes nunca mais nos gozaram mas nós ainda temos, por vezes,
algumas más recordações. Hoje, eu e o Gonçalo somos um casal e já
temos dois filhos e não queremos que eles sigam o exemplo daqueles
rapazes nem que sejam vítimas de bullying.



Esta história foi elaborada, em parceria, pelos alunos do 6ºB do
Agrupamento Vertical de Escolas Dr. António Augusto Louro e pelos
alunos do 6ºA do Agrupamento de Escolas Pedro Eanes Lobato e está
inserida no projeto "Histórias de cá e de lá", uma inciativa das
professoras bibliotecárias Maria José Amador e Alcina Soares em
colaboração da professora de Português Andreia Sampaio.


