Este texto foi elaborado no âmbito de uma oficina de escrita, após a análise de um excerto da obra «O Mundo em que Vivi», de Ilse Losa.






«Abracei o avô Markus, beijei-lhe a cara, em tempos tão bela.
Segui o pai. Reprimi os soluços. Virei-me. E para sempre levei a imagem: um velho alquebrado, de lágrimas a caírem no bigode descurado (...). Os nossos olhares cruzam-se pela última vez.»
As lágrimas caíam do rosto do avô Marcus. Este encontrava-se só e triste num recanto da sala, esperando uma mísera carta vinda de Rose.



Enquanto o avô se encontrava bastante deprimido, pela separação da neta, Rose embora um pouco abalada, estava maravilhada com o novo mundo que presenciava.
A viagem era bastante longa, mas Rose não aparentava nenhum cansaço, pois os vestidos de seda tomavam conta da sua cabeça. O pai estava bem vestido, com um fato bege e com uma gravata que nunca havia usado. Encontrava-se bem aprontado para o grande regresso da filha. Os seus olhos azuis reluziam com a luz do crepúsculo, assemelhavam-se a água pura, tão pura como os seus sentimentos.
Para Rose, quem conduzia era um estranho simpático; já nem conhecia as feições e a maneira de ser do pai...
A chegada à cidade deslumbrou o olhar de Rose. Havia casas de todos os tamanhos, mercados, estradas de alcatrão, tudo tão organizado!...





Quando o pai estacionou, Rose saiu do carro rapidamente e permaneceu imóvel a olhar para a sua mãe, Selma, a única pessoa que recordava, enquanto residiu em casa do avô Marcus. Era uma mulher imensamente bela de origem judaica. Aquela mulher realçava-se naquela entrada pobre.
De todos os prédios, casas e vivendas, aquela era a mais pequena, feita de pedra fria, uma casa sem quaisquer adornos, uma simples e humilde casa.
A mãe de Rose correu em direção à filha e abraçou-a, lacrimejando de felicidade. Deu-lhe um forte e afetivo beijo na sua testa húmida. Rose fechou os olhos, emocionada...









Ela não sabia que os pais passavam dificuldades, e ao ver a mãe vestida com aquelas roupas rotas, a sua casa pequenina, e o seu pai cansado de tanto trabalho árduo e duro, para puder sustentar aquela miserável mas agora mais alegre família, Rose ficou sem palavras.
Rose associou, então, o motivo de os pais a terem enviado tão precocemente para a casa dos avós e das recordações de nunca ver o pai, pois este saía de madrugada e voltava muito de noite, para poder lucrar alguns tostões para suportar e alimentar a sua família.
Rose estremeceu um pouco, e evocou as memórias do seu avô, quando brincavam, riam e faziam tudo juntos. Duas pessoas inseparáveis que se afastavam involuntariamente.
A rapariga abriu os olhos e voltou ao seu novo mundo, sem o avô que provavelmente nunca mais voltaria a ver.











Rose entrou em casa com os pais e viu uma pequena mesa com um jantar bastante pobre, mas feito com muito amor...
Sentados, em frente da mesa, estavam os seus tios e os seus irmãos mais novos, que tinham ficado em casa dos pais. Rose não sabia que tinha uma irmã mais nova, ela sempre sonhou ter uma pessoa com quem pudesse partilhar os seus maiores medos e desabafar todas as mágoas. Rose, como irmã mais velha, tinha ido bastante cedo para a grande vivenda dos avós. Logo, perdera a sua infância e grandes memórias com os seus irmãos.
Rose, apesar da tristeza que inundava o seu coração, devido às saudades dos seus avós, estava incrédula: tinha uma irmã com quem poderia partilhar as suas alegrias e as suas mágoas!...





Durante a refeição, a família permanecia calada; estavam todos pouco comunicativos. Após o jantar, cada um se deslocou para divisões distintas. Apesar de ser uma diminuta e apertada casa, todos os membros da família se conseguiam isolar.
Rose entrou no seu quarto, uma divisão sem cor, pálida, com cheiro a mofo, bastante pequena. Possuía móveis já descaídos, cheios de pó e havia marcas de humidade pelos recantos do quarto.
Deitou-se na cama dura e fria que se assemelhava a uma pedra. Rose sentia-se excluída, então, começou a questionar tudo o que a afligia e perturbava.
Passados alguns dias de desânimo e esvaecimento, Rose deduziu que aquele não era o conto de fadas que vivia em casa do avô. Agora tudo era diferente...
Sentia um enorme aperto no coração, carregado de tristeza, melancolia e desgosto. Toda a fantasia, alegria e entusiasmo de alguns dias atrás tinham desaparecido...
Tinha necessidade de desoprimir, retirar aquele sentimento paupérrimo dela, queria voltar à pessoa que era. Necessitava de se abrir ao novo mundo que presenciava. Tinha falta de algo. Desse sentimento veio a escrita, uma forma perfeita de desoprimir. Rose começou então a passar dias, noites a escrever...
Rose tinha descoberto a sua verdadeira paixão! Uma paixão que a ajudou a ultrapassar aquele momento tão melancólico da sua vida...
Escola Básica Infante D. Henrique
Ano letivo 2021 - 2022

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