
—Vejo as notícias na televisão e não consigo acreditar. Nunca julguei que depois de tudo o que passámos durante o Estado Novo tanta gente votasse num partido que nos quer restringir a liberdade. Quando se deu o 25 de Abril eu tinha 22 anos, trabalhava como professora

na escola primária de Almodôvar, e só passado dois dias fiquei a saber que tinha havido uma revolução.— desabafava Elvira com a sua neta, sentadas à mesa da cozinha enquanto viam o Telejornal e jantavam. Sabes Leonor, a vida era muito diferente naquele tempo. A escola onde dava aulas não tinha

aquecimento nem água canalizada ,só tinha uma turma, onde ensinava alunos da primeira à quarta classe, e muitos iam para a escola descalços e com fome. Poucos eram os que faziam mais do que a quarta classe. Eram tempos de pobreza e também de medo.
— Porquê medo, avó? — perguntou Leonor


— Olha, não podíamos juntar-nos na rua a conversar, que vinha logo a Guarda mandar-nos ir para casa. Ninguém podia dizer mal do Salazar que ia direitinho para o Posto ou pior. Houve uns quantos conhecidos meus que desapareceram na altura, e só depois soubemos que estavam presos no Aljube acusados de serem comunistas.
Eu acho que eles só queriam melhor pagamento da jorna, porque o trabalho no campo era muito duro e o que ganhavam não dava para sustentar a família. Antes de casar com o teu avô, namorávamos a medo, quase às escondidas, e tive de pedir autorização para poder casar, por ser professora.

Ele era um rapaz tão jeitoso, aqueles olhos azuis e o cabelo muito preto, sempre tão bem penteadinho... eu também era uma rapariga bem-apessoada, apesar de modesta fazia questão de andar arranjada. Fazíamos os caracóis com papelotes e costurávamos as próprias roupas em casa. E agora tanta gente a votar assim. Não me digas que tu também Leonor, que era uma vergonha— gracejou Elvira.
— Claro que não, avó, eu bem me lembro das histórias que tu e o avô me contavam quando eu era mais pequena, e temos tantos livros escritos por pessoas que viveram em Ditadura e contam tudo o que passaram... também não percebo como há gente da minha idade que parece não entender o valor da liberdade e da democracia.
— Agora há uns dias deu na televisão um documentário onde apareciam umas gravações do 25 de Abril lá no Largo do Carmo, com os militares todos nos tanques e de cravo vermelho. Foi um dia muito bonito depois de quase 50 anos de ditadura.
Lembro-me bem da primeira vez em que fui votar, havia uma fila enorme de pessoas à espera da sua vez. A população aqui da terra sentiu pela primeira vez que tinha uma palavra a dizer. E a seguir a vida melhorou um bocadinho
Começámos a ter consultas no médico, lá na Casa do Povo, os bebés tinham um melhor acompanhamento, começaram a morrer menos crianças e a alimentação também passou a ser melhorzinha.
E passámos a poder falar abertamente sobre o que achávamos que estava mal, criámos sindicatos, reivindicamos o direito a um salário justo e digno. E para as mulheres também foi muito bom, conseguimos o direito ao divórcio, à custódia dos filhos,
a poder trabalhar na profissão que escolhêssemos, fosse ela qual fosse. Olha, estamos muito melhor, é o que te digo.
Fim.

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