
Era uma vez um lindo jardim cheio de flores e árvores, com muitos insetos e pássaros. Era ladeado por um ribeiro que nascia na montanha uns quilómetros mais acima. A água deste ribeiro era fresca e pura, cheia de vida aquática. Aqui conviviam, em plena harmonia, peixes, rãs e libélulas. Todos os animais e insetos vinham saciar a sede na sua água.

















Este jardim fazia parte de um grande palácio, antigo e bonito, habitado por um casal de velhinhos. Eles ocupavam uma grande parte do seu tempo a passear, gostavam de cuidar e contemplar as maravilhas da natureza.
Numa bela manhã de primavera regressa a casa Concorrência, filha do casal, uma senhora feia e má. Tinha a mania das modernices e, por isso, não tinha valores ambientais.
Um dia manda chamar os jardineiros para os informar de que no país onde vivera antes já não se usavam os métodos tradicionais de agricultura, as sementes que aí se cultivavam produziam muitos mais alimentos. Ordenou, então, que a partir desse dia todas as plantações feitas naquele palácio obedeceriam às suas ordens e seriam usadas as sementes que ela trouxera consigo. Dizia ela que eram mais produtivas e resistentes a pragas porque tinham sido manipuladas geneticamente.
A revolução agrícola tinha acabado de começar. Em poucos dias, a filha maléfica põe em prática os seus planos. Eis que chega ao palácio um camião que descarrega um trator e suas alfaias. Concorrência pede aos empregados para que estes reúnam os burros, os cavalos e as vacas, que anteriormente eram usados para tração animal, e para os colocarem dentro do camião. Os animais já não eram necessários, por isso iam ser levados para longe do palácio.
Com o tempo, todas as aves e insetos se começam a queixar. As abelhas e as borboletas foram as primeiras a morrer, o que deixou todo o reino em sobressalto.
A Rainha Elisabete, como estava grávida, não dava muita importância aos rumores que estavam a abalar todo o reino.
Aos poucos, as aves começaram a abandonar o jardim, pois aqui já não abundava o alimento. O pouco que havia provocava doenças nas aves, por isso elas começaram à procura de outros locais para nidificarem.
Uns dias mais tarde, nasce a Princesa Gisela: Uma Joaninha muito bonita e saudável, mas com um grave problema de formação: a princesa nasceu cor de laranja e sem as habituais pintinhas pretas. Isso deixou o Rei Constantino muito zangado!
Mandou chamar todos os vassalos do reino para descobrirem o paradeiro do gafanhoto Albertino, um dos melhores curandeiros do jardim.
Quando o descobrem, constatam que ele também não está muito bem de saúde, pois já nem reconhece os vassalos do reino e nem se lembra de alguma vez ter sido curandeiro, ou de ter feito alguma coisa semelhante…
O Rei Constantino fica muito irritado, pede aos soldados vespa para irem investigar todo o território do reino.
Uns dias mais tarde, os soldados vespa informam o Rei Constantino que todos os jardins que rodeiam o Jardim Mizarela se encontram bonitos e saudáveis. Os Reis de Pêro Soares, Vila Soeiro e Aldeia Viçosa até dizem que há muitos anos não viam uma Primavera como esta, com tanta abundância de alimentos e flores, proporcionada pela chuva que caíra nos últimos tempos.
Já não sabendo o que poderia fazer mais, o Rei Constantino pede aos soldados vespa para subirem a montanha e visitarem o Doutor Mocho Ambrósio, um sábio que vivia num reino vizinho no cimo da montanha.
- Bom dia, Doutor Mocho Ambrósio! Desculpe acordá-lo a esta hora, mas o nosso Rei Dom Constantino pediu para o virmos informar que o nosso reino está a correr um grande perigo.
- O que se passa soldados vespa? - disse o Doutor Mocho Ambrósio.
- O nosso jardim foi amaldiçoado! Os pássaros andam doentes… as abelhas e as borboletas morrem… e a nossa princesa Gisela nasceu cor de laranja e sem pintas pretas… O nosso Rei Constantino pede a sua presença no palácio logo que possa.
- Vou já para lá!
Em poucos minutos, o Doutor Mocho Ambrósio chega ao palácio, mas antes de pousar faz um voo de reconhecimento do local. Constata que o jardim deixou de ter a biodiversidade que anteriormente tinha. Agora só produzia milho, girassol e soja. Apercebeu-se, também, que as plantas eram maiores que as dos jardins que circundavam a Mizarela, Pêro Soares, Vila Soeiro e Aldeia Viçosa.
Ao ver o Sapo António, o Doutor Mocho Ambrósio resolve aterrar e perguntar-lhe porque estava tão magro. Este responde que tinha perdido o apetite, pois os insetos já não tinham o mesmo sabor de antigamente. O mais grave, referiu, era que quanto mais comia mais fraco se sentia.
Entretanto, o Doutor Mocho Ambrósio constatou que todas as plantas e flores do jardim Mizarela tinham sido trocadas por outras, embora parecidas. Eram maiores e não tinham o mesmo sabor. Já no palácio, o Rei Constantino informa o Doutor Mocho Ambrósio que todos os habitantes do jardim Mizarela estão doentes, quanto mais comem mais fome sentem e cada vez estão mais magros e todos estes sintomas são recentes.
Isto não deixou nenhuma dúvida ao Doutor Mocho Ambrósio sobre a causa das doenças. Apontou duas soluções. A primeira era partir e procurar um jardim saudável. A segunda era falar com o casal de velhinhos que tratava anteriormente o jardim Mizarela e informá-los de que todo o reino estava em perigo, por causa das novas colheitas que sua filha Concorrência tinha introduzido no jardim.
O Rei Constantino resolve ir falar com o casal de velhinhos. Depois de muitas diligências, consegue descobrir o casal que se encontra junto à piscina e o Rei Constantino pousa na mão do Senhor Velhinho. Tenta chamar a sua atenção, mas o senhor já tem uma idade avançada e está um pouco surdo. Ainda assim, ao fim de algum tempo, lá consegue os seus intentos e o Senhor Velhinho ficou muito contente por voltar a reencontrar um grande amigo.
- Olá Rei Constantino! Há quanto tempo não o via… Como vai Vossa Alteza? – diz o Senhor Velhinho.
- Não vou nada bem! O nosso reino está a definhar! As abelhas e as borboletas morrem, os chapins e as outras aves estão doentes, o jardineiro sapo António está tão magro que mais parece uma rã e os peixes abandonaram o ribeiro. O Doutor Mocho Ambrósio diz que a culpa é dos fertilizantes, dos inseticidas e das plantas geneticamente manipuladas que sua filha Concorrência introduziu no jardim Mizarela.
- Mas, segundo o que a minha filha Concorrência me disse, estas plantas são muito melhores, maiores, mais saborosas e até resistentes a pragas… - diz o Senhor Velhinho.
- Pois… elas são tão resistentes a pragas que até os polinizadores matam. Se fizer um passeio pelo jardim Mizarela irá constatar que já não vê uma única abelha ou borboleta.
- Está, então, explicada a razão pela qual as árvores este ano não têm fruta… Eu pensei que tinha sido a geada tardia que veio em Abril que tinha queimado a floração.
- Foi a falta das abelhas e das borboletas, pois quando se deu a floração das árvores já todas tinham morrido e a polinização não foi feita, – disse o rei Constantino, e ainda tenho mais uma grave notícia para lhe transmitir, o problema é tão grave que até na gestação dos nossos filhos tem influência, a minha filha Princesa Gisela nasceu cor de laranja e sem as habituais pintas pretas, nunca no nosso reino isto aconteceu, sabe que as más-línguas já insinuam que não é minha filha.
- Vou mandar chamar os meus antigos jardineiros, perguntar o que mudou. Depois irei informá-lo ao palácio.
- Obrigado senhor, se nos puder ajudar ficar-lhe-ei eternamente grato. Até um dia destes! Bem-haja!
Nessa noite, o Senhor Velhinho reuniu com os antigos jardineiros. Todos tinham sido despedidos por não conhecerem as novas tecnologias e foram unânimes em afirmar que o estado em que o jardim Mizarela se encontrava se devia aos fertilizantes e inseticidas que Concorrência introduziu no jardim Mizarela, substituindo o estrume e as caldas à base de plantas. Trocou as sementes antigas por umas novas, trazidas dos Estados Unidos, de nome Monte-Santo.
Num jardim onde antes andavam animais, agora só andava um trator. Uma máquina tão pesada que até as minhocas esmagava, mesmo que estas se encontrassem a muitos centímetros de profundidade. O mais grave é que poluía tudo por onde passava.
- Onde está a minha junta de vacas, o meu burro e o meu cavalo? - Perguntou o Senhor Velhinho aos jardineiros.
- A sua filha Concorrência trocou-os pelo trator. – Disseram em uníssono os jardineiros.
- Então como? O dono sou eu e não dei autorização para isso! Vou já desfazer o negócio!
- Senhor, a sua filha Concorrência vendeu toda a forragem. Como vamos agora alimentar todos os animais que anteriormente tínhamos? Olhe que ainda são muitos!
- Não se preocupem! Temos muita forragem para lhes dar! Enquanto eu vou desfazer o negócio, vocês vão à Quinta do Carvalhal pedir ao senhor Joaquim Oliveira para nos vender milho, feijão, grão e todas as sementes que habitualmente semeávamos, – diz o Senhor Velhinho.
Entretanto, chegam os velhos animais ao jardim Mizarela, embora muito debilitados por terem estado fechados em estábulos; estão felizes com a receção dos velhos companheiros e a nova oportunidade de poderem viver e correr em liberdade no jardim onde nasceram.
- Senhor, o que damos de comer aos animais? – Perguntam os jardineiros.
- Vamos começar por alimentá-los com milho, girassol e soja. Como a primavera ainda agora começou vamos voltar a semear o nosso milho tradicional e todas as plantas que anteriormente faziam parte do nosso belo jardim Mizarela, e vamos pedir uma audiência ao Rei Constantino para o informarmos que vamos recuperar o seu reino a todo o custo.
A boa notícia do jardim Mizarela espalha-se rapidamente por todos os reinos vizinhos, o que leva os jovens casais a procurar novos territórios para aí nidificarem.
Aos poucos, o jardim recupera todo o seu esplendor. Os animais, as aves, os insetos e os peixes vão regressando e, lentamente, o jardim volta a ser o que era: o melhor e mais belo jardim do Vale do Mondego.
Com o regresso da paz e da comida saudável e biológica, a Joaninha Princesa Gisela está cada dia mais vermelha e, aos poucos, ganha as pintinhas pretas, o que deixou todo o reino muito feliz.
FIM
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