


A história

Em Vila Franca do Campo, há cerca de um século, havia um ferreiro, pai de muitos filhos, sendo um deles Valério. Este, enquanto criança, era feliz, mas a alegria foi-se tornando em tristeza com o passar do tempo, porque sonhava, todos os anos no dia do seu aniversário, que a sorte lhe destinava uma sina terrível.

No dia em que a mãe deu à luz o décimo terceiro filho, soltando pragas, com um sorriso na cara de demónio, Valério deixou a casa do pai e partiu sozinho pelo caminho fora.

Tinha-se cumprido a voz do povo que reza o seguinte: toda a mulher que tenha treze filhos machos seguidos, um deles, quase sempre o mais velho, será lobisomem durante treze anos.

Em casa do ferreiro foi um dia de sofrimento, de juízo, enquanto que pela freguesia inteira as pessoas, cheias de medo, não se cansavam de fazer benzeduras. Correra a notícia de que Valério se tinha transformado em lobisomem.





A partir desse dia, depois de escurecer, ninguém tinha coragem de passar pela casa do ferreiro nem de sair a altas horas da noite.




Alguns lamentavam:
- Coitado! Que sofrimento, transformado em besta-fera, escorrendo sangue de muitas feridas!
Passaram-se, assim, treze anos sobre o dia em que Valério tinha deixado a casa do pai.








Durante os serões de Inverno, tremendo de medo, contavam que o filho do ferreiro se aproximava das casas, dava coices nas portas, arrastava correntes, soltava gemidos de dor quando o diabo, com o forcado em brasa, o picava.
Ao entardecer, desse dia, o padre da freguesia, o sacristão, que carregava a caldeirinha e a cruz, e o ferreiro puseram-se a caminho em direção aos montes.
Andaram, andaram, sempre calados, até que, já depois de anoitecer, chegaram a um lugar onde havia uma encruzilhada.










Pararam e ficaram à espera. Momentos antes da meia-noite, um barulho, como se um cavalo se aproximasse a correr, despertou os três homens,
O ferreiro, cheio de emoção e medo, balbuciou:
— Aí vem ele!










— Fé em Deus! – exclamou o padre, levantando bem alta a cruz.
O sacristão, tremendo de terror, benzeu-se e, nesse preciso momento, um animal de aspeto medonho, fazendo um estrondo, passou.








— Dominus vobiscum, spiritu malum! – gritou o padre, ao mesmo tempo que atirava sobre a besta água benta.
Imediatamente o animal desapareceu e, no seu lugar, ficou uma nuvem de fumo, que foi subindo, subindo até desaparecer.
















O padre benzeu o sítio e os três homens voltaram para casa do ferreiro. Aí fez-se uma grande festa porque a triste sina de Valério tinha acabado. Cantaram ao desafio, dançaram o “Pezinho da Vila”, enquanto o melhor vinho que havia na adega refrescava as gargantas cansadas.












No meio de tanta alegria e gargalhadas, só Valério ainda parecia triste, lembrando, talvez, os tormentos que tinha passado durante treze longos anos e dizia baixinho:
— Pelo ei se isto me torna a acontecer.
Fonte consultada
https://agendacores.pt/10-lendas-acorianas-de-meter-medo-ao-susto/

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"Sina de lobisomem"

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