Este texto foi elaborado no âmbito de uma oficina de escrita, após a análise de um excerto da obra «O Mundo em que Vivi», de Ilse Losa.

Ouvia o bater dos cascos dos cavalos na calçada e vi pessoas que andavam de um lado para o outro, demasiado ocupadas com as suas próprias vidas para reparar em mim. Como é que o meu mundo fora o único que parara depois do que me acabara de acontecer? Não parecia justo.
Não me lembro de quando adormeci. Só sei que quando acordei, estávamos a passar numa rua cercada de casas modestas, de ambos os lados. Eram todas muito diferentes, mas muito parecidas ao mesmo tempo. Por algum motivo aquele lugar fazia-me sentir deprimida, drenada de qualquer tipo de luz e esperança.
Parámos em frente a uma casa de pedra, simples. Suficientemente grande para os cinco, suponho. Imaginei que seria um casarão imponente, com um jardim bem tratado, num bairro afogado em verde e em gargalhadas de crianças sofisticadas, mas simpáticas, das quais eu me tornaria amiga. No entanto, esta era uma casa simples e modesta, com um pequeno jardim com espaço suficiente para talvez um baloiço, no canto mais a oeste. O próprio bairro onde era inserida era triste e não me parecia que as pessoas fossem muito sociáveis, nem sequer felizes.
E foi então que a vi. A rapariga que saiu da casa ao lado era bonita, pequena e magrinha. Parecia-se comigo. Quando me sorriu, soube que seria, mais tarde ou mais cedo, a minha melhor amiga. Se algum dia tivesse coragem para falar com ela...
Estava determinada a odiar cada segundo que passasse naquele lugar, mas talvez uma amiga não fosse atrapalhar esses meus planos.
O meu pai chamou-me para entrar, interrompendo os meus pensamentos.
Subi os poucos degraus que separavam o jardim do estreito alpendre que antecedia a casa. Num dos seus extremos, bastante afastado da porta, estava um cadeirão de baloiço com um aspeto rústico. Imaginei-me a ler ali, todos os dias, aquando do pôr do sol. Depois lembrei-me de que ainda não sabia ler, e esse pensamento tornou o ambiente melancólico, uma vez mais.
Passei pela pequena porta de madeira, seguida de meu pai. Estávamos num pequeno corredor, com uma abertura em arco de cada lado e umas imponentes escadas ao fundo, que imaginei ser o acesso aos quartos, no andar de cima, uma vez que a casa não parecia grande o suficiente para haver mais do que dois cómodos aqui em baixo. No centro do espaço, havia uma pequena mesa redonda de madeira, com uma toalha de renda sobre o tampo e uma jarra com flores selvagens, ao centro. Interroguei-me se seria capaz de pintar aquelas flores, se no papel continuariam a ter o mesmo ar espontâneo e livre.
Da abertura em arco do lado esquerdo, fui capaz de ver uma sala de estar com aspeto razoavelmente grande. Sentada no sofá que me era visível, estava minha mãe. Parecia apreensiva, nervosa até... Quando me viu, correu para mim. Os seus braços eram firmes, mas suaves à minha volta. Quis chorar por me estar a sentir tão confortável nos seus braços, era como se estivesse a trair o meu avô por me sentir assim.
Quando me largou, pude absorver melhor os detalhes daquele lugar. A sala não era tão grande quanto a dos meus avós.
A sala tinha uma lareira no centro da parede que me era oposta, repartindo a área de jantar, que não passava de uma mesa de seis lugares, sem muita decoração adicional, no fundo da divisão, da área de estar, composta por dois sofás de dois lugares e uma velha poltrona demasiado grande, em torno de uma pequena mesa de centro circular. Os meus irmãos estavam sentados num dos sofás, parecendo nervosos, como quem acabou de deixar entrar uma estranha em sua casa. Através deles, vislumbrei o janelão que tinha visto pelo lado de fora. Tinha uma vista agradável para aquela rua. E ali, em baixo daquela que parecia ser a única fonte de luz daquela casa, estava um banco que acompanhava o parapeito do mesmo. Talvez noutra vida, numa em que eu estivesse realmente feliz e não tivesse sido tirada aos meus avós, me sentasse ali para ver o que se passava na rua ou para desenhar...
Trocámos uns "olás" constrangedores e, enquanto o meu pai me levava a pouca bagagem para cima, minha mãe levou-me até à outra extremidade do primeiro andar, através da outra abertura em arco no pequeno hall, onde ficava a cozinha. Era uma cozinha modesta, nem muito grande nem muito pequena, com móveis não muito novos, tal como tudo nesta casa. Tinha uma mesa redonda no centro do cómodo e, em cima da mesma, encontrava-se um prato com o que pareciam ser bolachas caseiras. Não tinha fome, mas fiz a vontade a minha mãe e comi uma. Não me dei ao trabalho de dizer o quão deliciosa era.
Alguns minutos depois, segui minha mãe até ao quarto que agora seria o meu. As escadas rangiam e tinham um ar antigo. No cimo, havia um pequeno corredor com quatro portas. A do fundo, explicou-me minha mãe, dava para a casa de banho, a da direita para o quarto de meus pais e as da esquerda para o quarto que os meus irmãos partilhavam e para o meu (que, segundo ela, era um antigo escritório, provavelmente de quando ela ainda trabalhava).
Entrei no meu quarto, com as mãos trémulas, mas determinada a manter uma expressão neutra. Era pequeno, constatei, mais pequeno do que o meu antigo quarto. Havia uma pequena cama encostada à parede maior, onde meu pai pousou a bagagem e uma mesinha de cabeceira que a acompanhava. Junto da porta, estava um guarda-fatos razoavelmente grande e havia uma secretária de madeira com uma cadeira rosa à frente da janela, que tinha vista para a casa ao lado. As paredes eram de um rosa pálido, contrastante com o tom de rosa choque da cadeira e da roupa de cama. Era agradável, mas não o suficiente para me fazer sentir em casa. Não havia uma fotografia minha com o avô nas paredes; aliás, não havia uma única fotografia no quarto inteiro. Não era o quarto onde me imaginava a sentir coisas boas e a ansiar, quando sentia coisas más, refugiar-me do mundo...
Ouvia o burburinho de meus pais a conversar, mas estava demasiado concentrada nos meus pensamentos para lhes prestar atenção. Não percebi o que diziam, nem sequer se falavam para mim, mas quando fiquei calada, de olhos vidrados, o meu pai saiu do quarto com uma expressão frustrada e a minha mãe começou a arrumar as minhas roupas no armário, com uma expressão que não consegui interpretar.
Os meus pais eram como estranhos para mim, mas apercebi-me o suficiente para os conhecer bem melhor do que esperava.
Meu pai era uma pessoa impaciente, com ar de quem está sempre preocupado com alguma coisa e que nunca tem tempo para nada. Minha mãe não me pareceu muito faladora. Tentou quebrar o gelo, mas sem muito sucesso, talvez pela falta de esforço que demonstrou. Não me parece que seja o tipo de pessoa que dá a sua opinião naquilo que acha que deve dar, nem o tipo de pessoa que está muito preocupada com as coisas à sua volta. É uma mulher misteriosa, por estar sempre muito reservada ao seu mundo. Pergunto-me se sempre foi assim. Não me lembro de como era antes de eu ir morar com os avós.
Quando abriu o armário, algo chamou a minha atenção...
...o vestido de seda cor-de-rosa mais bonito que alguma vez vira; aquele que meu pai me prometera. Mas, ao contrário do que pensava, aquele vestido não me fez sentir mais feliz nem preencheu o vazio do meu coração. Estava frustrada, precisava de chorar. Acho que a minha mãe me deixaria chorar ali sem me fazer grandes perguntas, mas não queria transparecer o quanto me importava com aquela mudança para não a preocupar assim tanto, uma vez que o avô me explicou que era uma coisa mesmo necessária e que não era culpa deles que assim fosse. Disse que tinha de ir à casa de banho e saí o mais rápido que pude. Atravessei o corredor em direção à casa de banho e fechei a porta atrás de mim.
Desabei em choro mesmo antes de me conseguir sentar sobre o tampo da sanita. Aquela não era a minha casa e, por mais agradável e acolhedora que fosse, nunca seria. O avô não estava ali.
Deixei as lágrimas escorrer-me pela cara até me doerem os olhos. Não sei quanto tempo passei abraçada aos joelhos no chão daquela casa de banho, mas acabei por me levantar para lavar a cara. Assimilei, finalmente, o que estava à minha volta. Era uma divisão pequena, simples, com louças e paredes brancas e uma pequena janela ao lado da banheira. Era, surpreendentemente, o lugar desta casa onde me sentia menos fora do sítio.
Os primeiros dias ali foram os mais difíceis. Era tudo muito diferente de casa dos meus avós, mas acabei por aceitar o facto de que agora a minha casa era ali. O avô ainda vivia na minha memória, mas havia muita coisa que podia fazer sozinha e agora tinha ganho duas companhias extra para brincar, mesmo que a confiança deles fosse mais difícil de ganhar do que estava à espera.
Meu pai nunca estava em casa, quase nunca lhe punha a vista em cima. Também não me preocupei muito com isso, uma vez que estava sempre com cara de poucos amigos e que precisávamos do dinheiro do trabalho dele, já que minha mãe não trabalhava.
Passei os dias a pintar no banco do janelão e a inventar histórias para contar aos meus irmãos. Descobri que a porta no fundo da cozinha, aquela que ficava ao lado da porta da dispensa, dava para um jardim, nas traseiras, apenas um pouco maior do que o que ocupava a frente da nossa residência, mas ainda assim menor do que o de casa dos avós. Passei lá muito tempo a observar as cores da natureza ou a brincar com os meus irmãos.
Os meus irmãos têm cabelos castanhos claros, como os de minha mãe, e eram altos para a idade, como meu pai sempre fora. No meio deles, eu parecia uma estranha... Os meus cabelos eram de um loiro muito claro, em contraste com os poucos cabelos escuros de meu pai, e era muito pequena e esguia.
Ouvia a rapariga do lado a rir frequentemente, o que me fazia sorrir inconscientemente e querer ainda mais conhecê-la. Através da janela do meu quarto, conseguia ver o seu. Era cheio de bonecas e ela passava a maior parte do tempo lá, a brincar com elas ou a fazer coisas que eu não reconhecia.
Não me era permitido sair de casa sozinha, nem a qualquer hora, pelo que não tive muitas oportunidades para explorar a pequena aldeia onde vivíamos. Havia muitas regras aqui que eu não entendia. Sabia, apenas, que a aldeia era composta pelas casas da minha rua e que havia uma loja de tamanho considerável um bocadinho antes da mesma, pois tinha reparado nela uma vez que fora ajudar minha mãe a despejar o lixo. Sabia, também, que as crianças não saíam muito à rua para brincar, seja por que fossem proibidas de sair ou porque simplesmente se sentiam mais seguras em casa. Todas menos ela.
A minha vizinha estava sempre a brincar com as bonecas no jardim ou a colher flores dos canteiros. Iria arranjar coragem para falar com ela, um dia. Mas não hoje. Hoje, aqui sentada na cadeira de baloiço do alpendre, lembro os dias em que o avô me levava ao parque para brincar. Todos os sábados, à tarde. Mas não hoje. Este sábado não iria ao parque. Meus irmãos começaram a ir para o infantário. Meu pai não parava em casa. Às vezes, ainda o via de manhã, mas trocávamos uns meros cumprimentos antes de ele sair outra vez para trabalhar. Minha mãe passava o dia muito calada, a limpar ou a cozinhar e a tratar das flores do jardim. Voltava a sentir-me sozinha outra vez, e as saudades dele voltaram também. Nestes dias, o cadeirão de baloiço do alpendre foi o meu melhor amigo.
Em um dia qualquer, estava eu ali sentada naquele lugar que agora era tão meu, onde o sol tentava atravessar os seus raios quentes pelas muitas nuvens que cobriam o céu, quando ela se aproximou. Apresentou-se com um sorriso no rosto. Poucos minutos depois já nos falávamos e ríamos, sentadas na relva mal aparada do meu jardim da frente. Foi a primeira coisa que me fez ver um pingo de luz no meio da escuridão daquele dia nublado.
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