



"O equilíbrio da terra, do mar e dos seres vivos depende de cada um de nós.
Preserva o lugar onde vives.
Respeita a vida.
(autor desconhecido)
Este livro é dedicado a todos
os seres vivos da Ria Formosa

Num belo dia de verão, Oliver e Estrela, dois biólogos do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), mergulharam na Ria Formosa para investigar as espécies que habitam a ria. Estes biólogos tinham como objetivo recolher dados e amostras para realizarem um trabalho científico para avaliar o estado em que se encontram os animais que vivem na Ria Formosa.
Logo que mergulharam, ficaram encantados com a beleza que os rodeou. Parecia que tinham entrado num paraíso marinho. O verde das plantas aquáticas, os cardumes de peixes e tantas outras espécies que viram, deixou-os maravilhados.

- Tanta beleza!
- exclamou a Estrela.
- É verdade!
- respondeu o Oliver.
- Como é que os humanos têm coragem de poluir um lugar com tanta vida e beleza?
- continuou o Oliver.
Está alguém aí?
Nesse momento aperceberam-se que algo se mexia ali perto…
- Está alguém aí? - perguntou o Oliver assustado.
Por detrás de uma pedra surgiu um polvo de barbas longas e brancas. Já era muito velho e por isso sabia muito sobre tudo o que se passava na ria.

- Bom dia, meus caros, eu sou o polvo Armando, o mais velho habitante desta Ria. Já vi e vivi muiiiito! - apresentou-se o polvo. E continuou:
- Ouvi a vossa conversa. É verdade! Os humanos não têm consciência de que são os maiores inimigos deste mundo aquático. Usam a ria para tudo o que querem e isso está a contaminar as plantas e os animais! Atiram lixo e resíduos tóxicos para a ria, utilizam-na como esgoto.... Enfim, se não mudarem de atitude, vão acabar por destruir o nosso habitat.

Nesta altura, o Oliver e a Estrela estavam completamente abismados, pasmados, atónitos. Nem queriam acreditar! Um polvo a falar? Depressa entenderam que tinham entrado num mundo mágico…
- Tens toda a razão! E é mesmo por isso que estamos aqui. Queremos conhecer melhor o vosso mundo e perceber qual o impacto da poluição na vida das espécies que aqui vivem. - Respondeu a Estrela.
- Sabemos que aqui existe uma população de cavalos-marinhos. Onde andam eles? - interrogou o Oliver.
- Ah, esses coitados quase desapareceram! - respondeu o polvo com um grande suspiro.
Onde andam os cavalos-marinhos?
Na minha juventude havia duas espécies e existiam aos milhões: os Guttulatus e os Hippocampus. Viviam felizes nas pradarias marinhas da Ria Formosa! Agora... quase nem os vejo! São agora uma das espécies em vias de extinção, aqui na Ria.
- O que lhes aconteceu? Para onde foram? - questionou a Estrela.
- Mais de noventa por cento dos cavalos-marinhos desapareceram nos últimos 20 anos! Isso significa que dois milhões deles já não estão cá… e continuam a desaparecer todos os dias! - esclareceu o polvo Armando.


- Mas porquê?
- quiseram saber os biólogos, mostrando um semblante preocupado.
Então o velho polvo explicou:
- Como já vos tinha dito, penso que a culpa é dos humanos! Usam a ria sem mostrar qualquer cuidado com a preservação de quem cá vive.

... outros morrem presos nas redes dos pescadores, outros ainda são levados pelos veraneantes como recordação ou para enfeitarem as suas casas.
Coitados dos cavalos-marinhos! Uns são apanhados para serem vendidos aos países asiáticos que consideram que eles têm poderes “mágicos”,...
Muitos morrem devido aos elevados níveis de poluição... Mais uma vez, a culpa é dos humanos que atiram tudo para a ria e degradam o nosso habitat. Para ajudar, ainda sofremos os efeitos das alterações climáticas que têm provocado a subida da temperatura da água.
A Estrela e o Oliver estavam tristes e chocados com o que ouviam. Será que podiam ajudar? A Estrela perguntou:
- Ó polvo, podes mostrar-nos onde fica a pradaria marinha onde habita a colónia de cavalos-marinhos?
O polvo ficou a pensar... O que queriam estes humanos? Será que a sua intenção era boa?
- Está bem… - respondeu o polvo hesitante…
- Mas não lhes podem fazer mal! - avisou o polvo.
Quando chegaram ao local, não viram nenhum cavalo-marinho. Onde andariam?
- Não vemos nenhum... Onde andarão, polvo? - questionou o Oliver.
- Eles devem estar escondidos entre as algas. Sabem que eles têm a capacidade de se camuflar e passarem despercebidos, não sabem? - perguntou o polvo. - Vou chamá-los!

O polvo utilizou uma linguagem secreta para dizer aos cavalos-marinhos que estava tudo bem e que eles podiam aparecer.
Ajudem-nos!
De repente, viram-se várias cabecinhas a espreitar por entre as algas.

- Venham! – disse o polvo. - Estes humanos não vos vão fazer mal! Vieram para nos ajudar!
- Olá a todos, nós queremos ajudar! É preciso descobrir o que é possível fazer e divulgar pelos habitantes de Olhão. - Esclareceu o Oliver. - O que acham que devemos fazer para vos proteger?


A chefe da colónia aproximou-se e disse:
- Eu sou a Marina, a líder da população dos cavalos-marinhos que habitam na Ria Formosa. - Respondeu ela, e continuou…
- Eu sei como é que vocês nos podem ajudar! Venham atrás de mim, que eu vou mostrar-vos uma coisa.
E lá foram eles…


Depois de terem nadado cerca de cem metros, a Marina segredou-lhes o seguinte:
- Agora não façam barulho nem movimentos bruscos porque vou mostrar-vos uma coisa espetacular!

Falem
baixinho.
Shiuuu... Agora não façam barulho nenhum!
Então, o Oliver e a Estrela depararam-se com um canto aconchegado entre as algas, onde estava uma pequena maternidade de crias de cavalos-marinhos.
- Estão a ver isto? – questionou a Marina – Se não fizermos nada para os proteger, nenhum vai sobreviver! Nenhum vai chegar à idade adulta e, por isso, não se vão reproduzir. – Explicou ela. – Mais um passo para a nossa extinção!!!















- Então vamos lá pensar o que podemos fazer para ajudar! – exclamou o Oliver.
- Vamos construir um santuário onde os cavalos-marinhos estejam mais protegidos! – propôs a Estrela.
- O que é um santuário? - perguntaram alguns dos cavalos-marinhos, confusos.
- Um santuário é uma área restrita, um refúgio, que serve para proteger os cavalos-marinhos.
Ninguém poderá lá entrar sem autorização, os pescadores não podem entrar nessa zona e ninguém pode mergulhar. Somente os biólogos poderão lá entrar para estudar a vossa espécie. – Esclareceu o Oliver.
- Excelente ideia!!! – respondeu o polvo entusiasmado. Já agora, lembrem aos vossos amigos humanos que não devem poluir a ria, nem andar aqui com aquelas máquinas enormes que revolvem as areias e arrastam as plantas aquáticas que servem para nos alimentar, proteger e nos fornecem oxigénio!


- Sim, por favor façam isso! – implorou um dos cavalos-marinhos.
- Dos poucos que existem da nossa espécie, muitos já estão doentes. – lamentou-se outro cavalo-marinho com um aspeto muito frágil.



- Fiquem descansados que nós vamos tratar disso com as autoridades competentes! – prometeu a Estrela com convicção.
- Agora temos que seguir viagem por esta bela ria…. Acompanhas-nos, polvo? – perguntou o Oliver, expectante, olhando para o velho polvo.
- Claro que sim, com todo o gosto! Vamos lá!
E os três seguiram viagem…

Nadaram, nadaram e foram encontrando diversas espécies marinhas. Continuavam encantados com o que viam.... Apareceram cardumes de biqueirões, de douradas e de linguados!
Passar por entre aqueles tesouros marinhos era mesmo maravilhoso!
De repente, sentiram a água a mexer, mas o Oliver e a Estrela não estavam a perceber o que estava a acontecer e, assustados, perguntaram:
- Está alguém aí?
- Não se preocupem, é uma chilreta. – Explicou o polvo.
- Podemos falar com ela? Será que consegue falar connosco? – questionou o Oliver, um pouco confuso com aquele mundo mágico.
- Andem antes que ela regresse a terra. - Informou o polvo. - Ela é uma ave e só vem ao fundo do mar buscar o seu alimento.
Então o polvo agarrou-os com um dos seus oito tentáculos e nadaram mais depressa até à chilreta.
- Quem são vocês? - interrogou a chilreta desconfiada.
- Calma, eles vieram ajudar-nos! - acalmou-a o polvo. - Estão a pensar construir um santuário para os cavalos-marinhos!
- Sim, é verdade.... Estamos cá para ajudar a Ria Formosa! - afirmou a Estrela, muito confiante.
- Eu sou a Chilreta Barreta, a chefe do bando! - Apresentou-se a chilreta. - Já não consigo respirar.... Venham comigo até à costa.
E lá foram todos até à costa,
no entanto, o polvo ficou à
beira-mar, porque não conseguia
permanecer fora de água, uma
vez que é um animal aquático.


- Cuidado, estão aí os meus ovos! - Gritou a chilreta alarmada.
- Ah, desculpa! Não sabíamos...- Disse o Oliver, envergonhado.
- Ainda bem que
não os pisaram...
na maior parte das vezes, vocês,
os humanos, pisam-nos e nem sabem...- Acrescentou
a chilreta Barreta.
- Também vos vamos ajudar e desculpa a atitude de alguns humanos. - Lamentou a Estrela.
- Desculpem insistir, mas há pessoas que não têm mesmo cuidado! Levam os seus animais à praia e estes destroem os nossos ovos, pisando-os ou comendo-os.


- Tens razão, mas eles vieram cá para encontrar uma solução! - assegurou o polvo Armando.
- Se continuarem a destruir os nossos ovos, já não seremos muitos daqui a uns anos! Precisamos mesmo de ajuda! - comentou a chilreta.
Também as crianças brincam à beira-mar com as conchas e não veem que estão lá os nossos ovos e acabam por pisá-los. - Avisou a chilreta, entristecida.

- Não te preocupes, vamos informar o RIAS para que possa realizar mais sensibilizações às crianças e aos adultos para que tomem conhecimento do que vos está a acontecer. - comunicou o Oliver.
- Sim, o RIAS tem um projeto “Life Ilhas Barreiras” para ajudar os animais em vias de extinção da Ria Formosa. - Afirmou a Estrela.

- Que bom saber que os humanos estão a valorizar a Ria Formosa e a tentar ajudar as espécies em vias de extinção. – Acrescentou o polvo Armando, emocionado por haver alguma mudança nos seres humanos.


- É verdade, até há muitas crianças que querem ajudar... e preocupam-se muito com a limpeza das praias e o bem-estar animal. – Continuou a Estrela.
- Sabem... Nas escolas, os alunos também estão a fazer lindos trabalhos sobre a Ria Formosa. - Informou o Oliver.

- Temos que regressar para as profundezas da Ria, porque a maré está a vazar e assim não vou aguentar! - queixou-se o polvo Armando.
- Acompanham-nos para mais descobertas? - sugeriram o Oliver e a Estrela.
- Claro que sim! - responderam os dois em coro.
E lá foram os quatro amigos pela Ria Formosa, mas a Chilreta foi a esvoaçar por cima da água azulada...
O cenário era digno de se ver! O azul do céu acompanhava o azul-esverdeado das águas temperadas da Ria. Parecia que ambos os azuis se tocavam e que as poeiras finas, agitadas por uma brisa suave, serviam de cortinas para aquele encontro de azuis!


Os biólogos sorriam, inspiravam, conversavam, observavam ao redor e, sobre as suas cabeças, esvoaçava, livre, a Chilreta Barreta.
Esta pequena andorinha-do-mar, ágil e rápida, de bico longo e amarelo, impressionava os dois biólogos, pois a sua técnica de pesca revelava-se certeira.

Olha Estrela, olha!!

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