















Numa aldeia muito pequenina, com casas tacanhas e pessoas mínimas, vivia uma menina, ainda pequena, dona de sonhos enormes .

Olá! Eu sou a Aurora!


Aurora, a menina do campo, com cheiro a amora, gostava de saltitar pelas ruelas estreitas da sua aldeia, onde tudo era muito, muito pequenino. Conhecia-lhes os odores, os sons, as texturas e até as melodias...


Estou aquiiiii...


Caminhava com os pés descalços, sobre as pedrinhas polidas que por ali moravam, todas elas com formas e cores diferentes. Procurava, em todas as vezes que caminhava, ouvir o que cada uma lhe dizia. Aurora afirmava conhecer segredos que mais ninguém conhecia... Jurava ter habitado mundos onde nunca ninguém estivera... Mostrava-se tão convicta do que anunciava, que ninguém ousava, sequer, duvidar...
Ora, acontece que um dia, numa das suas voltinhas matinais, se apercebeu que o SOL começava a ceder espaço às nuvens.




Aurora, preocupada e pensativa, sentou-se no chão e cruzou as pernas à chinês. Ficou parada, quase inerte, muito próxima de um pequeno banco de madeira, pintado de castanho, que aos poucos teimava em perder a forma que Zeca, o carpinteiro da aldeia, lhe havia esculpido. As ripas, horizontalmente pregadas por grandes pregos já enferrujados pela chuva e pela humidade que chegava do mar, começavam a dar de si.







As cabras e as ovelhas do senhor João José gostavam muito daquele banco castanho e, todos os dias, o subiam e desciam, como se estivessem a desfilar numa passadeira vermelha, ou a fazer equilíbrios para se colocarem à prova…


A menina das amoras, depois de muito pensar, contemplou o céu, com um ar profundamente angustiado. Mas ao olhar, rapidamente entendeu que as nuvens queriam visitá-la e convidá-la a dançar... Sorriu. Sorriu muito. Até mesmo os seus olhos amendoados sorriram!




Percebeu a mensagem do seu amigo S O L. Notou que ele começava a sentir-se cansado e a desejar tirar uns dias de folga. Merecia esses dias! E, numa risada contagiante, maior do que o seu tamanho, ergueu os dois braços e começou a cantar uma canção dedicada ao astro-rei.
Dá-me um pouco de S O L
E deixa-me ver o que a Lua tem...

Naquele momento, embalado pelas pequenas palavras de Aurora, o SOL despediu-se. Iluminou a aldeia pela última vez e começou a dirigir-se para as montanhas. Por lá ficou. Sozinho. À espera que o cansaço passasse e a vontade revigorada de aquecer a pequena e velha aldeia se impusesse novamente!



Mas, de súbito, ouviu-se o ribombar de um trovão que se desenhava para lá das montanhas. Começaram a desfilar as nuvens, com os seus vestidos mais chiques, mais vistosos, mais densos, mais pálidos e pardacentos, como que a anunciarem que o verão acabava de se demitir das suas funções...
Aurora continuava a olhar o céu!
Continuava a desejar o SOL...
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Aurora, a menina com cheiro a amora © 2022 by Sónia Pinto is licensed under CC BY-NC-ND 4.0










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