Celso Ferreira

Quando vieres… não te esqueças dele
Traz o teu sorriso
Veste-o de ondas singelas
Pinta-o de cheiros a maresias
Pendura-o em ti, transparecendo sentires
(Já reparaste como é sempre transparente o mar?)
Quando vieres… lembra-te de tirar a roupa
Abre as portas do armário de ti
E despe-te… a roupa pesa e é demais
Espalha-a pelas ruas para tornar mais macia a viagem
A pele é o bastante
(A pele e o sorriso)
Quando estiveres a chegar não te esqueças
Emala a tristeza e fecha-a bem
Esvazia-te de lágrimas opacas
E vem… Só precisas dos olhos para adivinhar o caminho
(Os olhos, a pele, o sorriso)
Espera… falta ainda despir as palavras…
Saberei que chegaste … transparente como o mar…
Sentar-me-ei enfim no teu sorriso… mas só… quando…

Partir a lua
Pegar nas letras que descem
Para construir a noite
Pontear uma manta
Podre de estrelas desfalecidas
Penhorar água e engordar lágrimas
Poeirar os olhos
Pregados nas tábuas….são mordaças
Petrificadas de desesperos
Pardacentos, opacos, sufocantes
Pioneiros de morte acontecida
Prisões abertas a multidões soluçantes
Pedintes do nada
Pederastas de inocências transparentes
Pêsames no lugar de mãos que beijam
Placebo de vida….corta-se o ventre… espera-se….
Placenta a vomitar demónios
Prevaricadores de caminhos
Prognóstico?
Ptose fatal…é noite… o (im)paciente escolheu a morte…
Disseram-me que dos olhos
Sairiam cheiros a jardins
E que da tua boca correriam
Letras que se juntariam
Em auroras boreais
E eu acreditei
Gritaram-me ventos de carícias mornas
Orgasmos de olhares
Veludos de peles nuas
Que arrastam tempestades
De prazeres
E eu acreditei
Jorrou o sangue escuro
Naufragou o coração
Pirateou-se a morte
Afogaram-se as palavras
Claudicou-me a vida
E eu acreditei

, , , , , , , ,,
É o baile da palavra
São as pausas dos silêncios
Virguladamente vestidas
Dançam no espaço etéreo do papel
Passos graficamente (des)compassados
Parágrafo
Travessão Entrem os pontos
Os de interrogação e os de exclamação
?! ? ! ? ! ?
Aplausos espantados
Olhares que se procuram
Admiram-se sem saber
Tropeçam na ausência de som
Chega! Ponto final
.
Desamores em suspensão …
O entre parênteses da vida

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