
Dedicado aos meus filhos e ao meu marido, que tecem paciência para vivenciarem a minha escrita.
Grata, também, aos meus leitores pelo tempo dedicado à leitura d´O engenhoso mundo do palavrar que vou criando, gradualmente.
A autora,
Agostinha Pópulo



Rompera a aurora e, a pouco e pouco, uma manhã primaveril permitiu-se embalar pelos magníficos trinados dos passarinhos, que brindavam ao tão esperado bom tempo, bem como se deixavam tanger pelos subtis raios de sol.
Ruky, a estrela cintilante










Rúben, o pequeno traquina, acordara ao som desta melodia da Natureza e com o Astro-rei a roçagar-lhe a testa. Logo saltou da cama, lavou a cara, tomou o pequeno-almoço, escovou os dentes e equipou-se para andar de bicicleta.








Já com as cotoveleiras, as joelheiras, as caneleiras e as luvas, foi junto da mãe e disse:
- Mãe, já tomei o pequeno-almoço. Posso aproveitar este magnífico dia de primavera para andar de bicicleta?
- Podes, filho. Desfruta das carícias da luz do Sol, já que o fim de semana acaba rápido. Vê se tens cuidado! Anda por trilhos seguros!
- Sim, mãe. Até logo!
Quando a mãe ia retribuir-lhe o até logo , já o filho havia partido, montado na sua BTT, encimado por um frenesim louco.




Percorreu um caminho ladeado por uma vegetação verdejante e viçosa, que contemplou com atenção e prazer, pensando para com os seus botões: A Mãe-Natureza é bela e surpreendente…
Alguns metros mais adiante, o pequeno ciclista estancou, fixando o olhar na berma direita do caminho, onde repousava, triste, abandonado e, aparentemente, faminto, um pequeno cachorro escanzelado. Era um bebê Yorkshire Terrier, que pedia socorro com o olhar.






O pequeno ciclista nem hesitou, pelo que deixou cair para o chão a BTT e, cuidadosamente, aproximou-se do cachorrinho, procurando não o assustar.
Com afago no olhar e mel na voz, atreveu-se a perguntar, mesmo sabendo que não obteria resposta alguma:
- O que te aconteceu, cachorrinho? Por que estás aqui abandonado e neste estado deplorável? Gostaria de te poder ajudar… Não tens dono?
O cachorro apenas tentou um débil ganido, como que a responder, no seu lamento triste e desalentado.











Imediatamente, o Rúben montou na BTT, inverteu a marcha para regressar a casa, com o intuito de pedir ajuda aos pais.
Uma vez no jardim de casa, o pequeno traquina gritou, exaurido:
- Mãe, pai! Preciso de ajuda, urgentemente!
- O que se passou para estares tão aflito? – inquiriu a mãe, imergindo da porta da entrada de casa.
- Quando ia por um trilho que tem muita vegetação em volta, vi um cachorrinho abandonado na berma, que necessita de cuidados inadiáveis. Parece estar a sofrer muito…



- Oh filho, tem calma! Estás ofegante! – acudiu o pai, que se juntou à mãe, sob o arco da porta.
- Vamos já para lá ver o que podemos fazer – decidiu a mãe, de comum acordo com o pai.
Cada qual levou a sua BTT, seguindo pelo carreiro que o Rúben indicou.


















Puseram-se lá num instante!
O pequeno ciclista apressou-se a largar a bicicleta e aproximou-se do cachorro, exclamando:
- Veem como é verdade?!
Os seus pais constataram que, realmente, o cão precisava de cuidados médicos improteláveis. Começava a missão de salvamento do cão!








- Mãos à obra! – disse o pai, decididamente.
O pai calçou as luvas que trouxera no bolso (não sabia se o animal teria alguma doença contagiosa) e afagou-o. O pequeno Yorkshire Terrier soltou um leve gemido sofrido, o que despertou compaixão.
Com desembaraço, a mãe envolveu o cachorrinho numa manta e colocou-o na cestinha dianteira da sua bicicleta. Coube na perfeição, devido à sua pequenez.











- Vamos levá-lo ao veterinário! Parece que o seu estado é bastante grave! – ouviu-se dizer ao pai, enquanto a mãe assentia com a cabeça.
Já em casa, instalaram o cãozinho no banco de trás da carrinha, com o Rúben a vigiá-lo e a transmitir-lhe calor humano, usando apenas e só o seu terno olhar.












Este miúdo considerava que o seu destino passava por salvar aquele animalzinho indefeso. Sentia-o no mais profundo da sua alma. E, pela primeira vez, desde que o vira estava esperançoso...

Já na clínica veterinária, que distava 12 quilómetros da aldeia, o ciclista apressou-se a dizer à rececionista:
- Têm de salvar o cachorrinho, por favor!
- Calma, menino. Tudo faremos.

Em pouco tempo (que parecia infindável para o impaciente Rúben), o veterinário veio à porta do consultório e bradou:
- Próximo!
Lá entraram os três, com o cachorro em braços, como se transportassem um castelo de cartas, prestes a desmoronar-se.
- Doutor, por favor, salve a vida ao meu cãozinho! – suplicou o Rúben.
- Ao meu cãozinho? – questionou o pai – Parece que o cão te conquistou.

- Vamos tratá-lo como um rei! – tranquilizou-o o doutor, fitando os olhos do rapaz.
- Ufa!... - balbuciou o mais recente dono do cão, aliviadíssimo.
O médico veterinário examinou-o bem, submeteu-o a uma série de exames e colocou-o a soro, já que estava muito desidratado. Ficou internado até recuperar as forças e os males que o acometiam.


Foram feitas várias tentativas para encontrar o dono do cão. Tudo em vão, uma vez que o Yorkshire Terrier não tinha chip.
Todos os dias, o Rúben e os seus pais visitavam o cachorro. Até que, entre eles, cresceram fortes laços de afeto.
Era chegada a hora de o cãozinho sair do internamento. Já estava recuperado e nem parecia o mesmo que estivera em sofrimento na berma do caminho.
Entretanto, o pequeno traquina foi amolecendo os corações dos seus pais, no sentido de adotarem o cão, visto que se fosse devolvido à rua, todo o esforço feito para salvá-lo teria sido inútil.

- Vá lá… Até já tenho nome para ele! Ruky será! – tentou o rapaz, abraçando os pais.
Após terem conversado, os pais do Rúben atenderam ao seu pedido. Este ficou numa alegria desenfreada!
- Meu querido cachorro, chamar-te-ás Ruky! Seremos grandes amigos e companheiros de brincadeira!
O Ruky abanou a cauda e ladrou, em sinal de aprovação.
Ruky
Ruky
Ruky
Ruky

Muitos anos se passaram e inúmeras aventuras eles viveram. Até que, num fatídico dia, andava o Ruky a correr pela floresta, quando farejou um isco estranho. Como parecia apetitoso, resolveu prová-lo.
Em pouco tempo, o cão entrou em desespero e começou a ter convulsões, até que expirou nos braços do Rúben, que não conseguiu salvá-lo.


O rapaz ficou desolado; nem queria acreditar que havia perdido o seu melhor amigo.
Na noite que se sucedeu a esse terrível acontecimento, o Rúben sonhou… Um anjo apareceu no seu sonho, dizendo:
- Meu querido, não te assustes. Sou o teu Anjo da Guarda e trago-te uma mensagem de luz e paz. Demonstraste ter um enorme coração ao salvares, há anos atrás, esse pobre cão, que acabas de perder. Foi uma prova a que foste submetido, para testares o teu amor pelos animais e pela Natureza Criadora.
Superaste o teste, com muito sucesso. Como recompensa, serás sempre o meu protegido.




Não fiques triste! Cada vez que olhares para o céu estrelado e vires uma estrela a cintilar mais do que as outras, será o Ruky a enviar-te a sua luz e o amor que sempre te dedicou.
Ah! Dentro em breve irás ter uma irmã, à qual os teus pais darão o nome Núria.
Pela manhã, o Rúben acordou melhor e encarou a vida com mais ânimo. A ideia de vir a ter uma irmã até que era divertida. Também já pensava em adotar outro cachorro, ainda que sempre houvesse no seu coração um lugar especial para o Ruky.
E tararim, tararim, esta história chegou ao fim!







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