História da Verdade, História da MentiraEsta coletânea é uma homenagem
a todos os artistas da EB de Sabugo e Vale de Lobos
que se têm envolvido neste projeto: os artistas plásticos,
os escritores, os ilustradores e a todos os docentes
que o abraçaram e o têm feito crescer,
tornando-a já numa tradição desta escola.
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No tempo em que os animais falavam, vivia num armário
florido e cheiroso, um homem careca, de olhos grandes, que
vestia sempre um pijama listado e um chapéu de xadrez.
O homem do pijama era engraçado, rechonchudo, pezudo e
muito dorminhoco. Ele passava o dia a dormir e, se estava
acordado, passava o dia a bocejar.
Era uma pessoa que sabia poucas coisas do mundo e fazia
poucos amigos porque se deixava cair no sono a toda a hora.
Os amigos até o visitavam pouco para não o acordarem. Mas
o homem sonhava muitíssimo… Quem o conhecia dizia que
ele vivia no Mundo dos Sonhos e até lhe chamavam o “Super
Soneca”.

Num belo dia de pouca chuva, em que não apetecia estar ao calor da
lareira nem beber um chocolate quente, lá estava o nosso amigo
deliciado a ressonar dentro do armário.
De repente, um estranho animal, metade lobo e metade cão, de dentes
bicudos e afiados e com um ar assustador, arranhou na porta do
armário para a abrir. Era o lobocão, o Mauzão. Mal tocou no homem
com a sua cauda castanha, longa e peluda, ele acordou meio
ensonado e disse:
- Deixa-me dormir. Acabei de adormecer a semana passada!
O orelhudo lobocão não estranhou e sorriu. Com os seus olhos verdes
e matreiros, convidou-o para darem um passeio pela Natureza, até à
gruta da floresta.


Durante a caminhada viram algumas flores, mas o homem não
sabia como se chamavam. Encontraram alguns animais, mas o
homem não os conhecia. Passaram por pontes, riachos, prados
e montanhas, mas para o homem tudo era só “ caminho”.
O lobocão muito se divertia com a ignorância do homem. Aliás,
era sempre assim: enquanto ele dormisse muito, nunca ia
aprender nada!

Quando o manhoso do lobocão se despediu disse-lhe:
- É espantoso! És tão tolo! Não sabes nada de coisa nenhuma.
Voltarei para me divertir à tua custa. Até breve, amigo.

Mal chegou ao seu armário, o pobre homem adormeceu outra
vez. Mas no seu sono profundo dormiu triste e não se
conseguia esquecer do que o lobocão lhe tinha dito. Naquele
dia, o seu Mundo dos Sonhos parecia um pesadelo.
- Psiu…psiu…Soneca. Psiu…psiu. – Alguém de corpo branco e
fofo, patas pretas e olhos azuis, chamava o homem do pijama,
parecendo querer falar com ele.
- Olá. Lá vens tu outra vez. – disse o homem do pijama. És
meigo e simpático e apareces sempre. Mas é sempre para
estragar o meu sossego! No entanto, hoje até te agradeço
porque estava aqui atrapalhado com umas ideias tristes.
- Ideias!? Mas desde quando é que tu pensas e tens ideias!? –
disse o carneiro Sabedoria.


- Mau, mau! Também tu apareces para me ofender e magoar.
Já bastou o lobocão, não? Estive com ele e fiquei furioso,
desgostoso e tristoso.
- Ai! Diz-se “tristonho”. Lá estás tu a dizer disparates. É o que
faz dormires muito e viveres pouco.
- Viver pouco? Mas eu vivo!
- Vives a dormir. Não conversas, não escutas, não observas,
não lês, não contas…
- Para, para. Matétimaca não. Detesto rúsmeros.
- Vês, trapalhão. Diz-se “ma-te-má-ti-ca” e “nú-me-ros”.
Temos de fazer alguma coisa por ti para ficares mais feliz.
Pensei em…
- Irmos dormir um bocadinho. – disse o Soneca rapidamente.
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