

Dedico-a, ainda, em particular, a todas as pessoas que acolhem, de coração, os animais abandonados, tentando procurar para eles novos lares.
Adota um animal e terás um amigo fiel para toda a vida!














- Eu queria um cachorrinho. Pode ser, mamã? Pode ser papá?
- Logo se vê, Alberto. Logo se vê.
Mas aquele “logo” ficava sempre tão longínquo… Quase tão longe como o “Até logo!” dos meus avós, que demoravam uma eternidade a regressar depois que se despediam quando nos visitavam.
E eu ficava ali sentado no tapete da sala, no meio dos livros, dos puzzles, dos legos e de tudo o que era material lúdico-didático. Sabia de cor a palavra e todos se riam quando a pronunciava. Era uma daquelas palavras caras que não custavam cêntimos sequer. Era uma palavra de doutores, dizia a minha avó, quando vinha a minha casa.




O meu avô não se perdia com as palavras. Olhava para mim, com aqueles olhos redondos, muito pequeninos, naqueles óculos grossos, tão redondos como os olhos, mas muito maiores, para repetir constantemente que eu estava grande, cada vez maior.
- Da próxima vez que vier cá, certamente já não posso contigo ao colo, Bertinho! Estás a ficar um homenzinho.
- Sabes que isso é praticamente impossível porque tu serás sempre maior e mais forte do que eu, avô! Continuarei a ser criança durante muitos anos… Não vês que, cá em casa, só faço o que me mandam, que ainda não tenho direito a dizer o que quero? Acordo cedo, vou para a escola; chego a casa, faço os trabalhos de casa, depois do lanche; vou às aulas de piano, duas vezes por semana, e nem sequer fui eu que escolhi o instrumento que devo aprender a tocar de forma exímia; jogo ténis “nas horas vagas”, para me distrair do telemóvel e do computador, principalmente dos jogos, que me fascinam, precisamente porque posso fingir que sou outros a fazer outras coisas, coisas novas… e onde parece que tenho um pouco mais de atenção.









- Está bem, Bertinho! Já percebi. Mas sabes que a vida não pode ser só brincadeira. Também é preciso seguir regras, aprender a valorizar o que os papás fazem por ti. Eles gostam muito de ti. Só querem que sejas um menino responsável.
- Eu sei, avô. Por isso é que faço sempre, da melhor maneira, os meus trabalhos de casa. E olha que são muitos, podes crer.
- Acredito, meu menino. Acredito. Mas, então, por que razão estás tão chateado?
- Porque queria um cão. Um cão bebé, bem pequenino, todo peludinho…
- E já o pediste à tua mãe?
- Claro que sim. E ao papá também.
- Que te disseram eles, então?

- Não percebi muito bem, mas parece que vão ver… Só não percebi o quê! Será que vão ver o cachorrinho? Um lugar onde poderão encontrá-lo? Alguém que tenha muitos e precise de o dar? Será que sabem de alguma cadelinha que vai ter filhotes entretanto e não poderá tomar conta de todos eles? Porque, sabes, avô, há cadelinhas que têm muitos bebés e não podem alimentá-los todos. Então, os donos pedem a alguém para ficar com os mais fraquinhos para que eles não morram. Há outras que são abandonadas nas estradas, com a barriguinha muito pesada, com frio, sede e fome. Depois, quando os bebés nascem, elas deixam-nos ficar num cantinho, uns em cima dos outros, para ficarem quentinhos, enquanto elas vão procurar comida. Mas, infelizmente, às vezes, acontece de passar um carro, num dia de nevoeiro, ou nem sempre por isso, não as veem, ou nem se preocupam com isso, e elas acabam por não poderem voltar para os filhos. Estás a entender, não estás, avô?
- Sim, sim! São histórias tristes para esses animais.
- E o maior problema, depois disso, é que eles são inocentes, muito pequenos, ainda não pensam nem sabem dos perigos da vida. Então, às vezes, choram a ausência da mãe e vão procurá-la. Mesmo sem saberem por onde andam. São como nós, quando somos bebés. E, até mesmo como nós, quando já somos um pouquinho mais crescidos, mas precisamos das mães, pois são elas quem mais cuida de nós, mesmo quando passam muito tempo fora, no trabalho. Em alguns casos, até são os pais. Não importa. Seja quem for. É sempre alguém que nos ama, que cuida de nós. Porém, muitas vezes, esses cachorrinhos abandonados são encontrados por pessoas com um coração grande, que os levam para casa ou os entregam em instituições que acolhem animais. Sabes, avô, para mim, essas pessoas são deveras especiais. Se procurares na Internet, vais encontrar imensos abrigos para animais. Alguns têm histórias de maus-tratos, de sede, de fome, de negligência… Eu vejo as fotografias e fico triste.



Como é possível que alguém faça mal a um animal cujo único crime terá sido amar o seu dono acima de todas as coisas? De onde virá a coragem para maltratar um gatinho ou um cãozinho? Eu olho para eles e gostaria de poder tomar conta deles todos. Percebes, avô? Era um desses cachorrinhos que eu queria. Para lhe dar o amor que não pôde ter…
- Tens de insistir com os teus pais, mais uma vez. Eu dava-te um. Não faltam lá na aldeia, pelos caminhos, à procura de comida e de carinho, mas os teus pais teriam de aceitar. Sabes que ter um animal em casa requer muito trabalho, traz alguma preocupação… Quando são pequeninos, fazem xixi por todo o lado, roem os tapetes e os móveis; depois crescem, largam pelo pela casa inteira, em especial nos sofás, e é preciso levá-los à rua, faça chuva, faça sol… Como eu já te disse, ter um animal em casa traz alguns problemas…




- E muita alegria também, que é o mais importante!
- Sem dúvida, muita alegria também. E sim, a alegria é muito importante para uma pessoa, numa família. E sabes, Bertinho, eu gostaria muito de te ver alegre, feliz. Fazemos assim, se me aparecer por lá um cachorrinho abandonado, fico com ele para ti. Assim que convenceres os teus pais, trago-to. Queres assim?
As palavras do meu avô eram verdadeiras e eu sabia que poderia confiar nele. Sabia, sobretudo, que a maior alegria da sua vida era ver-me feliz. Se ele encontrasse esse cachorrinho, guardá-lo-ia para mim, com toda a certeza.
- Sim, avô, pode ser! Quando o papá e a mamã estiverem juntos, calmos e bem-dispostos, vou fazer uma nova tentativa. Pode ser que, desta vez, adivinhem a alegria que eu iria ter com o cachorrinho e digam que sim, que posso trazer para casa um amiguinho de quatro patas, principalmente se eu lhes disser que tomas conta dele até ele vir para mim.
- E que nome lhe havemos de dar caso ele me apareça? Não poderá ficar sem nome muito tempo… pois há de chegar o dia em que terei de o chamar e, sem nome certo, não será fácil fazê-lo.
- Não sei… Ainda não tinha pensado nisso…
- Pensa em algo de que gostes muito…
- Gosto de borboletas! Sim, avô, adoro bor-bo-le-tas!
O meu avô enrugou a testa e perguntou, num tom meio sério, meio de gozo:
- Borboleta? Se for uma cadelinha, menos mal, mas imagina que é um cão…
- E isso importa? As borboletas são todas meninas?
- Não! Tens razão, Bertinho! Tens razão…
- Pronto, avô, ficará Borboleta, então, quer seja cadelinha, quer seja cão.
- Já agora, por que razão gostas assim tanto de borboletas?


- Porque são belas e livres. Ninguém fica indiferente à passagem de uma delas. Parecem fadas! E são extremamente graciosas quando pousam nas flores. Têm a cor da primavera e fazem lembrar bailarinas em bicos de pés, dançando na natureza, de flor em flor, quase sem nunca parar.
- Pareces um poeta, Bertinho! É dos livros que lês?
- É mais daquilo que eu gostaria que eles tivessem, a natureza em si. Eu leio uma coisa e depois vou procurá-la por aí, no caminho para a escola, no jardim da escola ou noutro sítio qualquer. A minha imaginação não chega para compreender melhor o que a natureza tem de belo. É preciso ver e cheirar as coisas para perceber melhor a sua real beleza. O mesmo acontece com os animais e as pessoas. Só de pensar como são, não sei se fico a conhecê-los como deve ser. Tenho de olhar para eles, falar com eles, dar-lhes abraços e beijos…





- Então, vamos lá ver se te encontro uma ou um Borboleta…
Entretanto, a minha avó chamou:
- Carlos, temos de ir embora, que se faz tarde e a viagem ainda é longa. Um beijinho, Bertinho! Porta-te bem! Entretanto, voltamos. Se não for mais, há de ser pelo Natal. Já não falta assim tanto!
-Adeus, avó! Adeus, avô!
O meu avô piscou-me o olho, depois de um abraço apertado, enquanto eu abanava a cabeça sorrindo, acenando levemente que sim, como se tivéssemos um segredo, um segredo lindo, só nosso, que daria pelo nome de Borboleta. Até parecia um código secreto muito comum nos livros de aventuras que ia lendo sempre que podia.

Os meus avós entraram no carro. Os meus pais acenaram, em despedida. A minha mãe mandava beijos à minha avó, que mantinha o pescoço esticado, com o rosto virado para trás, para os receber. Também queria mandar beijos ao meu avô, mas ele mantinha-se concentrado no volante e na estrada. Já lhe custava a condução. O som do motor foi desaparecendo e eu já tinha saudades. Nunca mais era Natal!
Os meus pais entraram de novo em casa. O meu pai foi para o sofá. Ligou a televisão, para assistir a um jogo de futebol. A minha mãe olhou para mim e para a sala desarrumada, antes de se encaminhar para a cozinha.





Estava na hora de arrumar, cada coisa no seu lugar, até deixar o tapete, de novo, limpo. No dia seguinte, seria segunda-feira. Mais cinco dias de trabalho, sem ver o pai, quase sem ver a mãe. Muitos mais dias sem ver os meus avós, sem saber se o meu avô encontraria ou não um cachorrinho abandonado na aldeia onde vivia.
Na minha cabeça, já morava esse cachorrinho, de manhã à noite, e até durante os meus sonhos mais animados. Ainda não sabia se era macho ou fêmea, ou sequer se já existia, mas chamava-lhe Borboleta. Tinha sido o combinado. Corria com ele pelos campos do meu avô, rebolando os dois na erva fresca enquanto ria sem parar. E era sempre primavera nesses meus sonhos, de sol ameno, grilos cantadores e flores de todas as cores. Nas manhãs orvalhadas, sem calçado, sentia nos pés a terra húmida, brincando sem parar com o meu mais fiel amigo.







- Full access to our public library
- Save favorite books
- Interact with authors




Emília Dias Ferreira

- < BEGINNING
- END >
-
DOWNLOAD
-
LIKE(8)
-
COMMENT()
-
SHARE
-
SAVE
-
BUY THIS BOOK
(from $4.79+) -
BUY THIS BOOK
(from $4.79+) - DOWNLOAD
- LIKE (8)
- COMMENT ()
- SHARE
- SAVE
- Report
-
BUY
-
LIKE(8)
-
COMMENT()
-
SHARE
- Excessive Violence
- Harassment
- Offensive Pictures
- Spelling & Grammar Errors
- Unfinished
- Other Problem

COMMENTS
Click 'X' to report any negative comments. Thanks!