

Era 1 de Abril de 1974. Sou a Marta e vou contar como foi a minha vida antes de 25 de Abril de 1974.
Eu tinha 25 anos, não tinha direito a votar nem mesmo de ter liberdade, nessa altura ainda morava com os meus pais. Não era noiva nem tinha filhos mas tinha-me apaixonado por um humilde homem Eduardo. A parir do dia em que o conheci, nunca mais nos afastámos, a vida era difícil no tempo Salazarista, sobretudo os namoros, havia muitos medos e inseguranças.
Ele enviava-me cartas com o nome de "amigo" para que os meus pais não suspeitassem de nada. De vez em quando ele ia a minha janela com um buquê de rosas, mesmo sendo arriscado ele tentava sempre ver-me.
Um dia, ele começou a ter uns comportamentos estranhos, não me mandava cartas tantas vezes e parava de vir aqui, eu até pensei que fosse por causa dos guardas, que, quando o viam a noite a voltar para casa, gritavam: "O que estás aqui a fazer? Vai para casa já!".
Até que um dia, recebi uma carta que me deixou de coração partido...
"Olá, meu amor, desculpa por não estar mais a mandar cartas com tanta frequência, mas preciso de te contar uma coisa... vou para a guerra, por 1 ano, mas não te preocupes, vou estar numa zona mais segura, não vou poder-te ver hoje, pois é o dia que vou partir, por enquanto é um até já, nunca será um adeus.
com amor
Eduardo."
Lembro-me como fosse ontem, quase não saía do meu quarto, só saía para arrumar a casa, essa notícia deixou-me muito magoada, a dor que sentia era inesquecível mas lembro que ele me mandava cartas todos os meses, sempre o mesmo "amor estou bem e vivo", mas isso era o suficiente para eu ficar melhor.
Até que, um dia, recebi a melhor notícia da minha vida.
Lembro que após um ano ele me tinha mandado uma carta e que foi a melhor notícia de todas:
"Olá, minha vida, estou vivo e finalmente estou a voltar para a cidade, a guerra acabou! Agradeço muito que tenhas estado comigo este tempo todo, não sei quando estarei na cidade, mas quando chegar, serás a primeira pessoa que irei visitar".
Naquele dia, senti-me finalmente feliz, a guerra tinha terminado, mas mesmo assim, o direito a voto das mulheres não era possível, sonhava em ter uma vida cheia de liberdades, onde não tinha de esconder nada de ninguém.
Era dia 24 de Abril de 1974, lembro-me muito bem disse dia, eu estava a ler um livro no sofá da sala enquanto ouvia batidas na minha janela do quarto. Para a minha surpresa, era o Eduardo, com o buquê de rosas lindíssimas. Logo nesse momento em que comecei a falar com ele, ouvi uma música a sair do rádio, "Grândola, vila Morena", de Zeca Afonso, comecei a ouvir gritos, tiros mas em vez de sair balas saíam cravos vermelhos que demonstravam o fim da ditadura salazarista.
Senti-me livre, que era uma coisa que sempre sonhei, senti-me livre, mais corajosa, tive o meu direito de votar, como mulher e sem dúvidas foi o melhor dia da minha vida. Hoje tenho 65 anos, e sou casada com o Eduardo e temos 2 filhos, Madalena e Rafael.

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