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Sinopse
Clara Martins, uma jovem veterinária de 22 anos, vivia em Lisboa, no bairro da Graça. De traços suaves e olhos que pareciam sempre mergulhados numa melancolia antiga, Clara vivia sozinha desde a morte de Martim, com quem estava noiva quando ele faleceu tragicamente há dois anos, vítima de um cancro rápido e cruel. A dor tornara-se rotina, e a solidão, companheira. Desde então, mergulhara no trabalho, tentando salvar os animais que lhe chegavam às mãos como forma de compensar a vida que não conseguira salvar. Os domingos eram os piores, cheios de silêncios e memórias. O anel de noivado permanecia numa caixa de veludo, nunca usado.
Martim Silva, contabilista de profissão, era metódico, sorridente, e escondia atrás da sua lógica fria um coração demasiado sensível. Conhecera Clara num jantar entre amigos, e o seu riso nervoso encantara-o. Apaixonaram-se devagar, com timidez e respeito mútuo. Martim queria casar, formar família, e Clara dava-lhe a paz que o amor com Eva nunca lhe permitira.
Eva Duarte, jornalista de 25 anos, era o oposto de Clara. O cabelo revolto, a forma directa de falar, a inquietação nos gestos. Martim conhecera-a dois anos antes de Clara, num festival literário em Coimbra. A relação deles fora intensa, destrutiva, marcada por ciúmes, paixão e uma ligação emocional que nenhum dos dois soubera controlar. Quando Eva partiu para uma longa reportagem fora do país, Martim, cansado da instabilidade, tentou reconstruir-se. Foi assim que encontrou Clara.
Capítulo I – A Caixa Selada
A manhã estava fria, húmida. Clara voltava da clínica com a cabeça mergulhada numa névoa de cansaço. Era domingo, e os domingos doíam mais. Ao chegar a casa, encontrou sobre a mesa da entrada uma pequena caixa de madeira escura. Reconheceu a caligrafia — era da mãe de Martim.
Com as mãos a tremer, Clara abriu a caixa. Dentro, envolta em tecido de linho, repousava uma carta selada com cera vermelha. O nome dela escrito com a letra firme de Martim: “Para Clara. Para depois.”
Sentou-se no chão. A carta pesava. O papel era apenas papel, mas carregava a promessa de uma despedida. Não conseguiu abri-la. Guardou-a numa gaveta, junto ao anel de noivado.
A tarde passou em silêncio. Oiço do rádio tocava uma canção antiga que Martim costumava trautear. Clara fechou os olhos e deixou que a dor a atravessasse, sem resistência.
Naquela noite, sonhou com ele. Martim estava num campo de girassóis. Sorria-lhe, mas não dizia nada. Quando ela tentava aproximar-se, ele desaparecia com o vento.
Acordou com lágrimas e uma sensação estranha de que algo estava prestes a mudar.
Capítulo II – Ecos de Outubro
Outubro sempre tivera um peso estranho para Clara. Foi o mês em que Martim partiu. O mês em que tudo se tornou ausência.
Nesse ano, dois anos após a morte dele, Clara caminhava pelo Chiado quando o viu — ou pensou ver. Era uma mulher. O cabelo castanho-escuro, ondulado, preso com um lápis. Caminhava depressa, com uma pasta de couro à tiracolo. O passo decidido. O mesmo perfume. Eva.
Clara parou, o coração a martelar no peito. Eva desaparecera da cidade pouco depois do funeral. Nunca se tinham falado, nunca se tinham despedido
Ficou ali, no passeio, durante minutos. A ver a multidão engolir a silhueta dela. Sentiu um peso novo na garganta. Um nó de perguntas que nunca tivera coragem de formular.
Naquela noite, voltou a casa e abriu o álbum de fotografias. Folheou devagar. Encontrou uma imagem antiga: Martim entre Eva e ela. Um raro dia em que todos sorriram. Não sabia como aquele momento tinha existido.
Clara olhou o envelope na gaveta. A carta esperava. Ela ainda não estava pronta.
Mas talvez estivesse pronta para procurar respostas.
Capítulo III – Reencontro
Clara decidiu escrever a Eva. A mensagem era simples: “Vi-te. Precisamos de falar.” Não sabia se o número ainda era o mesmo, mas a resposta chegou poucas horas depois.
Encontraram-se numa pequena cafetaria no Príncipe Real. Eva estava igual. Ou talvez não. Havia algo de quebrado nos olhos dela. Sentaram-se em silêncio. O reencontro era estranho, quase surreal.
– Nunca te culpei – disse Clara, de repente.
Eva levantou o olhar. – Eu culpei-me todos os dias.
Falaram durante horas. Sobre Martim. Sobre os dias finais. Eva contou que recebera uma carta dele também, semanas antes da morte. Uma carta onde Martim dizia que amava ambas, mas que só com Clara encontrara a paz.
As duas choraram. Pela primeira vez, sentiram-se aliadas na dor. Não rivais. A conversa terminou com um abraço. Um abraço que limpava mágoas antigas, que fechava feridas ainda abertas.
Capítulo IV – A Última Semana de Martim
Com o tempo, Clara começou a recordar os últimos dias de Martim. A doença progredira rápido. Em poucos meses, ele passou de caminhadas na praia a não conseguir sair da cama.
Ele nunca se queixava. Era Clara quem chorava à noite, em silêncio. Ele sorria-lhe sempre que podia, segurando-lhe a mão com força. Uma semana antes de morrer, pediu-lhe para guardar uma carta. “Quando sentires que o amor é maior que a dor, abre-a.”
Ela lembrava-se disso todos os dias.
Na véspera da sua morte, Martim pediu para ver o céu. Clara levou-o até à varanda, enrolado numa manta. Ele apontou uma estrela.
– Se um dia te sentires perdida, procura aquela luz. Eu estarei lá.
Morreu na madrugada seguinte, sereno, com os dedos entrelaçados nos dela.
Capítulo V – A Carta Aberta
Dois meses após reencontrar Eva, Clara decidiu abrir a carta. Era inverno. A casa cheirava a chá de camomila e a lenha.
Abriu o envelope com cuidado. Dentro, um papel manuscrito.
“Clara,
Se estás a ler isto, é porque já sabes viver com a minha ausência. Talvez ainda doa. Talvez nunca deixe de doer. Mas quero que saibas que te amei como nunca pensei ser capaz de amar.
Escolhi-te para ser o meu recomeço. A minha paz. A mulher com quem sonhei envelhecer. Mesmo na minha morte, foste vida.
Amo-te. E se puderes, vive. Por ti. Por nós.
Para sempre,
Martim”
Capítulo XI – Vozes Novas
À 1 ano que a clínica veterinária estava mais movimentada do que nunca. Desde que Clara decidira abrir um pequeno programa de estágios, recebera dezenas de candidaturas. Mas foi Inês quem mais a impressionou. Tinha 19 anos, um brilho curioso no olhar e uma delicadeza natural com os animais.
Na primeira semana, Inês reparou no silêncio que pesava sobre Clara. Não perguntou. Apenas acompanhou. Era hábil com cães difíceis, paciente com gatos assustados. E, aos poucos, com pequenas palavras e gestos, foi quebrando a solidão de Clara.
— Gosto de ouvir música clássica enquanto limpo as jaulas — disse Inês, certa manhã.
— Clássica? — Clara sorriu pela primeira vez nesse dia. — Porquê?
— Porque acalma os bichos… e a mim também.
— Clássica? — Clara sorriu pela primeira vez nesse dia. — Porquê?
— Porque acalma os bichos... e a mim também.
Foi também nessa semana que Clara voltou a ouvir a guitarra de Miguel. O músico tocava sempre à mesma hora, no miradouro da Graça. As notas de “O Leãozinho”, de Caetano Veloso, subiam pela rua e entravam-lhe pela janela.
Uma tarde, Clara decidiu seguir o som. Encontrou Miguel sentado num degrau, olhos fechados, como se tocasse só para si.
— Essa música... era a favorita do Martim — disse ela, inesperadamente.
Miguel abriu os olhos, surpreso. Depois, sorriu com doçura.
— A música tem o dom de encontrar o que está escondido.
Conversaram por horas. Miguel, mais velho, vivia sozinho e tocava para sustentar os pequenos luxos da sua vida simples. Era discreto, atento, e parecia compreender a dor sem precisar de explicações.
No final da conversa, Clara voltou para casa com uma pequena folha de papel onde ele escrevera: “Mesmo a saudade pode ter som de esperança.”
Na manhã seguinte, colocou o papel junto à carta de Martim.
Estava a aprender a viver outra vez.
Capítulo XII – Raízes no Monte da Esperança
O Monte da Esperança, a herdade deixada por Martim e que Clara cuidava com tanto zelo, começava a transformar-se num verdadeiro refúgio. Os animais acolhidos ali pareciam sentir o mesmo que ela: uma esperança tímida, mas real.
Foi Inês quem propôs a ideia de organizar um dia aberto ao público — uma forma de angariar donativos, mas também de aproximar a comunidade daquele lugar especial.
— Vamos chamar-lhe “Dia da Esperança”. Música, adoções, histórias partilhadas — sugeriu a estagiária, entusiasmada.
Clara hesitou. Não estava habituada a abrir as portas do que considerava o seu santuário. Mas Inês, com a sua ternura firme, convenceu-a. E foi assim que, num sábado de abril, o Monte se encheu de gente, sorrisos e canções.
Miguel foi o primeiro a oferecer-se para tocar. Escolheu temas suaves, alguns originais, e outros que Martim gostava. A certa altura, cantou uma versão acústica de “Avé Maria” que fez Helena, a mãe de Martim, chorar em silêncio no fundo do pátio.
Foi a primeira vez que Helena visitou o Monte.
Duarte apareceu de surpresa, trazendo ramos de alfazema que a mãe de Clara cultivava nos arredores de Lisboa. Pela primeira vez, Clara viu no olhar dele uma paz nova. Tomás ajudava a servir chá, disfarçando com sorrisos os olhos sempre presos em Clara.
Eva também esteve presente, acompanhada por Joana.
Ambas emocionadas ao verem que o legado de Martim agora tocava tantas vidas.
Quando o sol se pôs, Clara sentou-se ao lado de Miguel num banco de madeira improvisado. Ele ofereceu-lhe um caderno.
— Para escreveres cartas que ainda não sabias que querias escrever.
Clara abriu a primeira página. Pela primeira vez, escreveu sem lágrimas. Apenas com uma saudade serena, e a certeza de que Martim nunca partiria verdadeiramente.
Era o fim de um ciclo. Ou talvez... o começo de outro.
Capítulo XIII – A Segunda Carta
Dias depois do “Dia da Esperança”, Clara regressou ao sótão da casa onde vivera com Martim. Estava à procura de um livro antigo de veterinária, mas o destino tinha outros planos.
Ao mover uma das caixas de papéis antigos, uma pequena moldura caiu e, atrás dela, um envelope amarelado repousava entre o chão de madeira e a parede. Estava fechado, com o nome "Eva" escrito com a caligrafia de Martim.
As mãos de Clara tremiam. Sentou-se no chão, sentindo a garganta apertar-se. A carta estava selada, nunca enviada. Não sabia se devia lê-la... mas sabia que precisava de a entregar.
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