

Leonor; Nº14 ; 8ºA


A aula de F.Q estava a decorrer normalmente. A professora já tinha mandando calar, por três vezes, os mesmos alunos.
O assunto agora é sério. - disse a professora
E eu pensei: nesta aula o assunto nunca foi levado a sério. É sempre uma barulheira.
-Vocês sabem que as sombras podem ter vida, como nós?!
Fez-se silêncio. Agora todos se calaram para ouvir a professora.
Senti um arrepio sem saber porquê — aquela ideia absurda de sombras vivas abriu-me uma porta qualquer na cabeça, como se eu tivesse oito anos outra vez, com medo do corredor escuro.

— Fechem as cortinas — disse ela, de repente, olhando-nos um a um. — Vamos fazer uma experiência.
Alguém murmurou um “porquê?”, mas ninguém se levantou. A sala ficou mais abafada quando a professora puxou o tecido. A luz do corredor entrou só por uma fresta e as sombras ficaram mais densas, mais… conscientes. Ou talvez fosse só impressão minha; o coração batia-me mais rápido do que aquilo que me parecia razoável.

Ela esticou o braço devagar, pedindo silêncio com a mesma paciência absurda com que se conta uma história a uma criança teimosa. Depois, mais devagar ainda, mexeu os dedos. A sua sombra no quadro moveu-se.
Um riso baixo percorreu as carteiras — não um riso de convicção, mas um nervoso, qualquer coisa para encher o espaço. A professora sorriu pouco, quase sem alegria, e disse:
— Não é um truque de luz. Observem. Ao meu lado apontou discretamente para a sombra de um armário: parecia… tremer.

Tentei convencer-me de que eram reflexos de uns colegas, inclinações, a nossa própria imaginação a preencher vazios. Mas a sombra do quadro fez algo que já não era culpa de óptica: esticou um “braço” e tocou no ponto onde a mão da professora ainda pairava no ar, sem a mão real chegar a tocar. O silêncio partiu-se.

Saímos da sala de F.Q., e ela conduziu-nos por corredores silenciosos, até chegarmos à antiga biblioteca da escola, um lugar que poucos ousavam visitar. As portas rangiam quando se abriram e o cheiro de livros antigos misturava-se com a escuridão. As sombras dos livros e das estantes não eram simples formas escuras; elas moviam-se com uma inteligência quase sorrateira, contornando-nos, espreitando-nos, brincando com a luz que vinha das velas que a professora acendera.



— Precisamos de encontrar o livro certo — disse a professora, a voz baixa, mas firme. — Ele contém o segredo das sombras.
No centro, um livro enorme, encadernado em couro escuro, brilhava com uma luz própria.
Antes que alguém pudesse tocar nele, as sombras agitaram-se em uníssono, formando figuras que pareciam dançar ao redor do livro. Um frio percorreu-me a espinha, mas a professora, sem medo, sorriu e disse:
— Quem tiver coragem de ler, verá o que poucas pessoas já viram.
Quando abri o livro, não vi palavras comuns. As páginas moviam-se sozinhas, imagens surgiam, mostrando mapas de lugares desconhecidos, criaturas feitas de sombra e portas que levavam a mundos escondidos. Uma sombra saltou da parede e pousou sobre a página, como se confirmasse que aquilo era real.

A aventura começava ali, entre livros e sombras que riam, dançavam e, quem sabe, nos levariam a mundos que só existiam quando alguém acreditava neles.
E, naquela noite, as sombras que riem não eram mais assustadoras — eram companheiras de aventura

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