Ao Henrique e ao Afonso que me ajudaram a criar as personagens e a viver a aventura.

OS PINGU
O Barnabé é um aviãozinho aventureiro que gosta de viajar pelo mundo fora para conhecer lugares diferentes e encontrar novos amigos.
Durante a semana, o Barnabé trabalha no aeródromo da cidade Perninha Às Costas, mas mal chega a sexta-feira, ele lubrifica o trem de aterragem, limpa o vidro dianteiro, ajeita-se na pista e lança-se à descoberta. Por todos os lugares por onde passa, as pessoas acham imensa piada quando o pequeno bimotor se apresenta:
- Olá, chamo-me Barnabé-Pé-Coxinho e venho da Cidade Perninha- -às-costas.

O Barnabé já conhece todos os continentes. A Europa, onde vive, a África, a Ásia, a Oceânia e a América – a do Sul e a do Norte. Visitou, igualmente, as zonas mais frias do planeta, os Polos, mas não gostou muito da experiência, pois as hélices encheram-se de gelo e ele teve de aterrar num iceberg para as poder descongelar.

Foi nessa viagem atribulada ao Polo Sul que ele conheceu os Pingu, uma divertida família de pinguins reais, que o ajudaram na resolução do seu tão maçador problema.

O pai Pingu era um pinguim anafado, com um porte majestático, que se arrastava pelo gelo tamanho era o seu peso. A mãe Pingu era uma ternura, sempre preocupada com os três filhotes que não paravam de fazer disparates. As tropelias dos membros mais novos da família Pingu divertiram imenso o Barnabé, sobretudo as escorregadelas pelas encostas dos icebergs e as brincadeiras com a velha amiga da família, a baleia Filomena.
O Salvador, o Gil e a Berta adoravam trepar pelo dorso da Filomena e esperar que ela largasse o seu potente jato de água para o qual se lançavam, deixando-se subir e descer naquele chafariz improvisado. Às vezes, aquela água toda era desviada pelos fortes ventos vindos do Oeste e os pequenos pinguins eram transportados pelo ar até caírem na neve fofinha de um iceberg. A Filomena aproximava-se logo para ver se nada de mal tinha acontecido aos seus pequenos amiguinhos.

A Foca Maroca não compreendia aquela amizade entre a baleia e a família Pingu.
- Onde já se viu uma baleia andar a brincar com pinguins! Se eu os apanhasse dava-lhes uma dentada, ai se dava! – Comentava a velha foca cinzenta, arrastando-se para a água vagarosamente.
A Maroca era pitosga e os irmãos Pingu adoravam pregar-lhe partidas. Às vezes, erguiam montinhos de neve no trajeto que ela fazia diariamente para ir pescar, fazendo- -a tropeçar e estatelar-se no chão. Outras, escondiam-se e atiravam-lhe bolas de neve e, em tentativas mais arriscadas, atavam-lhe os bigodes enquanto ela dormia a sesta.

Ora, enquanto os miúdos brincavam com a Filomena e arreliavam a Foca Maroca, o Barnabé ultimava os arranjos da hélice com a ajuda do pai Pingu que, numa coreografia engraçada, se deslocava para trás e para a frente na neve imaculadamente branca, levando e trazendo ferramentas.


Chegou a hora de partir e as despedidas foram acompanhadas pela promessa de um dia voltar ao Polo Sul.
- Adeus, amigos! – Gritou o Barnabé enquanto fazia um looping para deleite da pequenada que, no cimo do chafariz da Filomena lhe acenava.
- Adeus, adeus! Volta depressa. – Exclamava o Gil, ao mesmo tempo que tentava imitar o looping do aviãozinho, mas sem muito sucesso, pois estatelou-se no dorso da Filomena.
-Até à vista, amigo! – Disse o pai Pingu, acenando do topo do iceberg onde morava com a família. A mãe Pingu não conteve uma ou outra lágrima que teimavam em bailar-lhe nos olhos.


E com mais uma acrobacia, o pequeno bimotor deixou as terras geladas da Antártida e voou rumo à sua cidade-natal. Tinham passado duas semanas sem que ninguém soubesse do seu paradeiro e com certeza estariam preocupados.
REGRESSO A CASA
Mal entrou no espaço aéreo da cidade Perninha-às-costas, endireitou o aileron da asa esquerda e preparou-se para a aterrar.
Foi então que reparou que estava a ser seguido pelo bando de pombos-correio do senhor Manuel. O líder era um passaroco rechonchudo chamado Sebastião que chefiava os restantes pombos como se de uma esquadrilha de caças se tratasse.


- Vamos patrulha! Escoltem o Barnabé até ao aeródromo! - Comandava com voz grave. – Barnabé, pronto para endireitar os flapes? Prepara o trem, já avisto a pista. Não te preocupes, tens boa visibilidade, o céu está FEW (com poucas nuvens), desce para 20 pés – orientava o Sebastião, utilizando vários termos da aviação bem conhecidos do Barnabé.




Lá em baixo já se começava a ver uma estreita linha de alcatrão preto que cortava o aeródromo a meio. Barnabé inclinou o nariz, fez ressoar o motor e apontou para ela.
O seu amigo Tobias, um jovial helicóptero
aquecia os rotores, preparando-se para voar. Quando reparou que o Barnabé estava a iniciar a aterragem, desligou- -se e esperou por ele na pista. Afinal, estava cheio de saudades e, por outro lado, o movimento das suas hélices poderia desequilibrar o amigo.
Uma vez cá em baixo, foram vários os companheiros que se juntaram à volta do Barnabé, ávidos por saber por onde ele tinha andado.
- Então?! Já pensávamos que não te tornaríamos a ver! – Comentou o velho dirigível Josefino, que a custo se veio juntar aos restantes. O Josefino há muito que não saia do aeródromo, pois estava velho e cansado e já não via como antigamente, quando levava os turistas a passear. Ele conhecia o Barnabé desde bebé e nutria por ele um carinho especial, pois tinha sido companheiro do seu avô em várias aventuras.

-Bem-vindo, amigo! – Gritou-lhe o Tobias. – O coitado falava tão alto, mas ninguém tinha coragem de lhe dizer nada. Habituado a ter de gritar aos seus passageiros por causa do barulho dos rotores, não conseguia baixar o tom de voz, o que fazia com que os amigos discretamente tapassem os ouvidos enquanto ele falava.
-Olá a todos! – Respondeu o Barnabé, felicíssimo por estar de volta à sua terra. – Estavam com saudades minhas?
-Claro! Nem imaginas o trabalho que tenho tido na tua ausência! Passageiro para aqui, passageiro para ali. Não tenho parado. – Queixou-se o Tobias.
-Calma que já cá estou. Hoje estou muito cansado da viagem, mas amanhã convido-vos a todos para bebermos uma latinha de óleo no meu hangar, combinado?
-Está com-com-binado! – Gaguejou o João Patusco, um balão de ar quente, muito colorido e brincalhão.
Todos lhe achavam piada porque sempre que gaguejava o cesto baloiçava, fazendo com que os passageiros enjoassem. Apesar deste pequeno contratempo, havia sempre gente à espera para passear no João Patusco, sobretudo crianças, pois ele era um óptimo contador de estórias e levava-as rentinho às copas frondosas das bétulas que rodeavam a cidade.


Feitas as despedidas, o Barnabé foi-se deitar, bem aconchegado e quentinho, pois enquanto esteve no Pólo Sul sentiu sempre as asas muito frias.

ATERRAGEM DE EMERGÊNCIA
No dia seguinte, o sol apareceu cheio de genica e espalhou os seus raios dourados por todo o hangar.
Incomodado pela luz, Barnabé piscou uma e outra vez os olhos, esfregou-os e bocejou. Espreguiçou-se dolosamente e abriu a porta, respirando o ar puro da manhã. Pegou numa latinha de óleo e bebericou-a com prazer. Depois saiu para visitar os amigos que ainda não tinha visto.

No cimo da velha oliveira que ficava à porta do aeródromo, encontrou o Pardal Lito, muito cabisbaixo e tristonho.
- Então, Lito, que bico é esse? – Questionou o Barnabé?
- Ah! Olá, Barnabé, já voltaste? – Balbuciou o passarito, desanimado.
-Cheguei ontem. Porque estás assim tão triste?
-Estou apaixonado
-Isso é bom! – Exclamou a pequena aeronave.
-Simse fosse correspondido.
-Ora essa! Quem é a ela?
-É a Catatua Rita. Ah! – Suspirou o Pardal Lito.
-A Rita? Uma catatua? – Disse, surpreendido o avião.



-Ela é tão linda, tão vistosa, tão colorida, tão...
-Mas ela sabe que tu gostas dela?
-Sabe, mas acha que um Pardal e uma Catatua não podem namorar. Para além disso, o Papagaio Tomé também lhe anda a arrastar a asa, o safado!
- O Tomé é um chato, nunca se cala e repete sempre o que as pessoas dizem! – Disse o Barnabé, na tentativa de animar o amigo.
- Pois, mas tem penas vistosas de um verde lustroso e adora meter-se em confusões. Uma vez deu uma bicada num piriquito que ele esteve duas semanas no ninho a convalescer. Temo que se me meter com ele, leve uma bicada ainda maior!
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Encontramo-nos na próxima aventura.

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