Eu dedico este livro ao Francisco Paixão por me ter ajudado nos exercícios onde tinha mais dificuldade.

Há cerca de cinquenta anos, a senhora Gage, uma viúva já idosa, estava sentada no jardim de sua casa, num povoado chamado Spilsby, no Yorkshire. Apesar de coxear e de ver já bastante mal, esforçava-se por arranjar um par de botas, pois mantinha-se com apenas alguns xelins por semana. Na altura em que martelava as botas, o carteiro abriu a porta e lançou-lhe uma carta para o colo.
Querida Senhora:
Temos o dever de informá-la da morte do seu irmão Joseph Brand.Deixou-lhe todos os seus bens, continuava a carta, que consistem numa casa, um estábulo, caixotes com pepinos, escoadores, carrinhos de mão, etcetera, etcetera, em Rodmell, perto de Lewes. Lega-lhe também a totalidade da sua fortuna, isto é, três mil libras esterlinas.A senhora Gage quase caiu de alegria. Não via o seu irmão há muitos anos
Chegou a Lewes uma terça-feira à noite. Naquela época, é preciso dizê-lo, não havia uma ponte para atravessar o rio em Southease, nem sequer se tinha construído a estrada de Newhaven. Para chegar a Rodmell era necessário atravessar o rio Ouse por um vau de que ainda subsistiam vestígios, mas só era possível com a maré baixa, quando as pedras do leito do rio afloravam à superfície. O senhor Stacey, o agricultor, ia de carro a caminho de Rodmell e ofereceu-se amavelmente para levar a senhora Gage.
Chegaram a Rodmell pelas nove horas, numa noite de Novembro, e o senhor Stacey indicou cortesmente à senhora Gage a casa situada no cimo do povoado que o seu irmão lhe deixara. A senhora Gage bateu à porta. Não obteve resposta. Voltou a bater. Uma voz muito estranha e aguda respondeu: «Não estou em casa!» A senhora Gage ficou tão surpreendida que se não tivesse escutado passos que se aproximavam teria desatado a correr. O caso é que uma velhota, chamada senhora Ford abriu a porta.
— Se calhar está triste ou tem fome — comentou. Mas a senhora Ford disse que simplesmente tinha mau génio. Pertencera a um marinheiro e tinha aprendido a falar no Oriente. Contudo, acrescentou, o senhor Joseph gostava muito dele e chamava-lhe James; explicou-lhe que falava com ele como se fosse um ser racional. A senhora Ford não tardou a ir-se embora. A senhora Gage pegou num pouco de açúcar que levava consigo e ofereceu ao papagaio, dizendo-lhe num tom muito suave, que não ia fazer-lhe nenhum mal, que era a irmã do seu velho dono, que vinha tomar posse da casa e que faria o que fosse possível para o tornar tão feliz quanto pode ser um pássaro.
Teve uma amarga decepção. Os tapetes estavam cheios de buracos, as cadeiras sem fundos e as ratazanas corriam pela sapata da chaminé. No soalho da cozinha cresciam enormes cogumelos. Não havia um único móvel que valesse duas patacas; e a senhora Gage só se alegrou ao pensar nas três mil libras, guardadas a bom recato, no banco de Lewes. Decidiu que no dia seguinte visitaria em Lewes os advogados Stagg e Beetle para reclamar o seu dinheiro e que regressaria a casa o mais depressa possível.
Nem ouro, nem prata, nem objectos de valor... nada excepto um papagaio cinzento que lhe aconselho a vender pelo que lhe oferecerem. Benjamin Beetle garante que o animal diz coisas muito estranhas. Mas não há mais nada. Receio muito que tenha feito a viagem em vão. Os bens foram delapidados e, é claro, os nossos honorários são muito elevados.
A senhora Gage, como já se disse, coxeava da perna direita. Em boas condições caminhava muito devagar, e agora, com a decepção que trazia e a lama das margens do rio, só com muita dificuldade conseguia avançar. Enquanto se arrastava com muito esforço, o dia tornava-se cada vez mais escuro e era difícil não se afastar do caminho que seguia junto ao rio. Caminhava resmungando e queixando-se da astúcia do seu irmão, que a tinha metido naquela embrulhada «de propósito», disse, «para me atormentar». «
Foi então que algo de maravilhoso aconteceu. Uma enorme luz iluminou o céu como uma gigantesca tocha, tornando visível até ao último pedaço de erva e mostrando-lhe o vau a pouco menos de vinte metros. A maré estava baixa e atravessar o rio seria tarefa fácil, se a luz não desaparecesse antes de o conseguir. — Deve ser um cometa ou algum prodígio semelhante — disse para si mesma, enquanto avançava mancando. Rodmell estendia-se diante dos seus olhos intensamente iluminado. — Deus nos valha! — exclamou. — Há uma casa em chamas. Louvado seja o Senhor!
Um menino em pijama aproximava-se saltando e gritando: — Olhe como arde a casa de Joseph Brand. Os vizinhos formavam um círculo em volta da casa, passando uns aos outros baldes de água, que tinham enchido no poço de Monks House e lançando-os sobre as chamas; mas o incêndio havia adquirido grandes proporções e, precisamente quando a senhora Gage chegava, o telhado desmoronou-se. — Alguém salvou o papagaio? — gritou. — Dê graças por não ter estado lá dentro, senhora — respondeu o reverendo James Hawkesford. — Não se preocupe com esse estúpido bicho.
Estou certo de que o papagaio morreu piedosamente asfixiado no seu poleiro. Mas a senhora Gage estava decidida a comprovar pessoalmente que assim fora. As gentes do povoado, que pensavam que devia estar louca para arriscar a vida por um pássaro, tiveram de impedi-la de o fazer. — Pobre mulher — disse a senhora Ford. — Perdeu tudo, menos umas caixas de madeira com os seus bens pessoais. Também nós enlouqueceríamos numa tal situação. Dito isto, a senhora Ford segurou a senhora Gage pela mão e levou-a para sua casa para passar a noite. O incêndio estava extinto e todos foram para a cama.
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