Para todos os meus professores.

Na altura em que martelava as botas, o carteiro abriu a porta e lançou-lhe uma carta para o colo.
Tinha o remetente «Messrs Stagg and Beetle, 67 High Street, Lewes, Sussex».
«Querida Senhora:
Temos o dever de informá-la da morte do seu irmão Joseph Brand.»
— Meu Deus! — exclamou a senhora Gage. O meu querido irmão Joseph morreu.
«Deixou-lhe todos os seus bens», continuava a carta, «que consistem numa casa, um estábulo, caixotes com pepinos, escoadores, carrinhos de mão, etcetera, etcetera, em Rodmell, perto de Lewes. Lega-lhe também a totalidade da sua fortuna, isto é, três mil libras esterlinas.»
Não obteve resposta. Voltou a bater. Uma voz muito estranha e aguda respondeu: «Não estou em casa!» A senhora Gage ficou tão surpreendida que se não tivesse escutado passos que se aproximavam teria desatado a correr. O caso é que uma velhota, chamada senhora Ford, abriu a porta.
— Quem é que gritou «Não estou em casa»? — perguntou a senhora Gage.
— O palerma do pássaro! — disse a senhora Ford muito aborrecida, apontando para um papagaio grande e cinzento. — Quase me rebenta a cabeça com os seus gritos. Passa o dia no poleiro como uma estátua e sempre que nos aproximamos dele grita «Não estou em casa».
Era um pássaro muito bonito, segundo pôde observar a senhora Gage, pena que tivesse as penas pouco tratadas.
Foi então que algo de maravilhoso aconteceu. Uma enorme luz iluminou o céu como uma gigantesca tocha, tornando visível até ao último pedaço de erva e mostrando-lhe o vau a pouco menos de vinte metros. A maré estava baixa e atravessar o rio seria tarefa fácil, se a luz não desaparecesse antes de o conseguir.
— Deve ser um cometa ou algum prodígio semelhante — disse para si mesma, enquanto avançava mancando. Rodmell estendia-se diante dos seus olhos intensamente iluminado.
— Deus nos valha! — exclamou. — Há uma casa em chamas. Louvado seja o Senhor!
Calculou que a casa demoraria pelo menos alguns minutos a arder e que então já estaria a caminho do povoado.
Dito isto, a senhora Ford segurou a senhora Gage pela mão e levou-a para sua casa para passar a noite. O incêndio estava extinto e todos foram para a cama.
A pobre senhora Gage não conseguia dormir. Não parava de dar voltas sobre voltas e pensar na sua triste situação, perguntando-se como voltaria a Yorkshire e como pagaria ao reverendo Samuel Tallboys o dinheiro que este lhe havia emprestado.
Sentia-se ainda mais preocupada quando pensava na sorte do pobre papagaio James. Já se lhe tinha afeiçoado e pensava que o animal devia ter bom coração para lamentar tanto a morte do velho Joseph Brand, que nunca se havia mostrado carinhoso com nenhum ser humano. Era uma terrível morte para um pássaro inocente; e pensou que se tivesse chegado a tempo teria arriscado a vida para o salvar.
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