
Cai a neve dos choupos em abril.
Faz tossir e a custo respirar.
Por isso canto o vento e o mar
Sem qualquer desafronta senhoril.
Em março vislumbrara o verde-claro
Prenúncio da plena primavera
Nos carvalhais onde ela se esmera
Mais do que pela várzea onde aro.
Esta carta é para ti, Humanidade,
Sem acrescentamento de «aberta».
Bastava enviar-ta e pela certa
Lê-la-ia já toda a cidade.
Do que não sei, falar me sobressalta.
Fá-lo-ei com o timbre de outra lavra,
Não com esta efémera palavra
Ou a minha virtude pouco alta.
Recordar outra voz dá-me a paz
E largo o temor com este lais:
«Se tens saber terás ainda mais,
Se não, outro qualquer, perdê-lo-ás».
Pelo ar voam longe as sementes
Ao vento no algodão dos amentilhos.
Cobrem todo o céu de alados trilhos.
Juncam o chão, as mágoas dolentes.
Saltam o arame, álacres, os potros
Tal como o silêncio, o carme.
Na verdade não quero mais salvar-me
E somente perder-me como os outros.
Queria ser soldado e amante.
Ter nos lábios apenas outro nome
Que de montes e vales rodeou-me
Mais do que de resguardo fulminante.
Nunca sonhei valer com este nada.
Preferia de longe o esquecimento,
Mergulhar noite fora ao relento
E ter só esta harpa gorjeada.
Em dizer maviosa elegância
Vejo apenas torpe cobardia.
Eterno, como é que eu morreria
Logrando com a perda a distância?
Era abril e no pátio da escola,
Com a alma de livros nevoada,
Vinha de muito longe a toada
Que trovas e mesuras, acrisola.
Transmontava o Sol mal-assombrado
O tempo tão ameno que não dura
E toda convulsiva de ternura
A tarde abrandava o enfado.
Logo o coração me vascoleja
Para onde o rio leva as águas.
Na margem só os álamos sem fráguas
Não guardam à distância inveja.
Clamar ao importante é em vão.
Sinto-me, na verdade, vulnerável
E apenas espero o improvável
Da minha melindrosa compleição.
Ilude a terra, o que a socorre:
Vaidade ou história ou mito
Que esgotam por meio do infinito
O que nasce e cresce e depois morre.
Raízes quebrantavam o lajedo,
As condutas de água lustral
Que se juntava em rio sem igual
E o vociferar pulsava ledo.
Em meandro vernal, estralejava
Com auras de agosto em abril
E roçagava a brisa sem ardil
O manto incandescente com a lava.
Saboreava-me da alegria:
Charamela, atabale e alaúde;
Sem que o riso famélico desnude
A sombra que por último ardia.
Era o tempo de folias túrbidas,
Messe de anelada cabeleira
E quem a lourejava à minha beira
Purpureava-se de rosas túrgidas.
Com trovas de cetim ou alabastro
A Harpia desluz o esplendor,
Continua porém deste teor
E sobre o empedrado a alastro.
Álamo, popular entre os romanos,
Que também o aluno estremeces,
Cada teu filamento gera preces,
Alento ominoso a humanos.
O céu alumiado a poeira,
Respalco para glórias culminantes,
No dia de hoje, no futuro e antes
Encontra a imagem numa eira.
Distante do solar avoengueiro
A não ser na sazão de cada fruto
Me despersuadiu de ser arguto
Florindo da maleita o ulmeiro.
E, de laborioso, o destino
Esconjurou para longe a malquerença.
Tudo quanto em mim por demais pensa
Já escuta o vento sibilino.
De versista lunar das multidões
Remi a altivez de mãos no rosto.
Logo me assomou com o sol-posto
Mal agourado de tão vis sezões.
Lembra-me cada choupo com a neve
A Senhora do Pópulo que vi
Por ter nascido onde eu nasci
Por mais que em exílio me ceve.
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