Ri, brinca e aproveita este livro =)
Francisco Ferreira
Texto: Cristina Costa e Francisco Ferreira (a partir da pág. 11)
Ilustrações: Francisco Ferreira
Santa Iria de Azóia
2020

Quinta de Vale Flores e o segredo das abóboras
A história que vos venho contar é muito mais que uma história de encantar. É uma história de amor, porque o amor não é só coisa de gente crescida. Aliás, há muita gente crescida que não conhece este tipo de amor.
Iniciemos então: um palácio esquecido, um zambujeiro envelhecido e uma menina aborrecida.
De braço a apoiar a cabeça, a menina olhava a paisagem da janela que todos os dias se abria, sob um vale imenso, que se estendia até ao rio, coberto de mato bravo e um canavial que percorria as margens de uma ribeira. Para lá da ribeira, podiam ver-se aquilo que eram os restos mortais de um edifício, mesmo muito antigo e uma oliveira, também ela desgastada com o passar dos anos. A menina olhava, mas não via, e, por isso, a sua vida era sempre igual, sem graça, dia após dia.
Contudo, sem ela saber, sem sequer poder imaginar, ela era o tema de conversa do velho zambujeiro e do palácio antigo.
Zambujeiro: Oh velho companheiro, já ninguém se lembra de nós, longe vai o tempo em que ao nosso redor não faltava vida! As lavadeiras a lavarem as roupas na ribeira, os homens que apanhavam a minha azeitona, as mulheres que colhiam flores para o ramo da espiga; bois que aravam estes campos, enfim...
Palácio: Pois, pois, mas quando aqui me ergueram parece que não fui lá muito do teu agrado.
Zambujeiro: Sabia lá eu que te estavam a engendrar! Primeiro foi um cavaleiro que aqui parou e ficou a olhar o horizonte com ar sonhador; dias depois, apareceram carroças cheias de pedra e homens a barafustar com grandes folhas de papel na mão, a apontar para aqui e para ali,...era no mínimo, assustador! Eu só pensava:"Ai meu Deus, o que é que vem aí?"
Palácio: Confessa lá, oh zambujeiro, o que veio agradou-te!
Zambujeiro: Olha, olha, lá estás tu com a mania das grandezas!
Palácio: Mas eu já fui importante... muito importante! Agora, estamos para aqui perdidos, lá se foi a importância toda! Importantes seríamos se aquela menina acordasse, passa os dias à janela, se pelo menos olhasse para nós...
Zambujeiro: Temos de fazer algo. Vamos chamá-la!
Palácio: Mas como, se nem acenar podemos, tu, sem folhas e com os troncos enfraquecidos e eu, ai eu... para aqui cheio de buracos e telhas partidas, a cair aos pedaços, só vivo mesmo em alma que o coração, ai esse... nem quero falar nisso!
Zambujeiro: Olha, já sei! Eu estou velho, mas ideias não me faltam. Que tal se unissemos forças e atirassemos uma pedra... podia ser que ela nos visse.
Palácio: Mais uma, dizes tu, das poucas que me restam... quando o meu senhor me fez erguer, nem uma ficou fora do sítio. Tudo tão bem feitinho que ficou um primor!
Zambujeiro: Belos tempos que já lá vão! Quem diria que por aqui já passou gente nobre do nosso país? Nem eu sonhava que aquele cavaleiro, Jorge de Barros, era um homem tão importante!
Palácio: Ai que saudades que eu tenho! E o tanque, cuja água regava os bonitos laranjais e as hortas?!... Esse meu companheiro que tão fielmente refletia, nas suas águas, a minha imagem, era nele que eu ma via e revia... morreu, mesmo à nossa frente, sem nada podermos fazer... para construírem uma estrada... vê lá tu bem, meu velho zambujeiro, uma estrada... o progresso também traz destas coisas.
Atiraram uma pedra, mas caiu mesmo no meio da ribeira. Teria que ser alguma coisa mais forte que fizesse barulho, talvez.
Zambujeiro: Que tal as abóboras? - sugeriu o zambujeiro.
É que aquele palácio tinha os parapeitos das janelas cheiinhos de abóboras. Um caseiro deixara-as lá ficar e ainda existem.
E assim foi. Naquela noite, enquanto a menina dormia sossegada, o zambujeiro deu um encontrão no amigo e todas as abóboras rolaram da varanda, de tal maneira que o estrondo foi tão grande que fez acordar a menina.
Menina: Que barulho foi este? Terá sido um pesadelo?
A menina correu à janela, mas, como era de noite nada viu.
De manhã, logo que o Sol espreguiçou os seus raios, depois de se aprontar e tomar o pequeno almoço, saiu de casa e pela primeira vez, pela primeiríssima vez, desceu o vale em busca de qualquer pista capaz de lhe satisfazer o formigueiro que sentia na barriga.
Menina: Bem, que lugar maravilhoso, pena estar tão abandonado...
A menina aproximou-se e, à medida que se aproximou, reparou numa quantidade de abóboras espalhadas em redor daquela casa velha...
Menina: Meu Deus, que terá acontecido aqui para estas abóboras terem caído da varanda?
Foi então que, como por magia, uma voz entristecida soou ao seu ouvido.
Palácio: Olá, estou aqui, olha para mim.
Menina: Quem és tu? Uma casa que fala?!!!!
Palácio: Muito prazer, sou a casa da Quinta de Vale de Flores, ainda que muito me achem um palácio pela minha imponência e idade - quase cinco séculos!
Menina: A sério?? E como chegaste a esse estado?
Palácio: Bom, essa é uma longa história... mas, antes de a desvendares quero apresentar-te um velho amigo e meu único companheiro dos últimos anos...
Zambujeiro: Muito prazer!
Menina: Mas o que é isto? Esta quinta está encantada ou quê? Agora as oliveiras também falam???
Zambujeiro: Verdade! Esta quinta tem encanto e por isso nós te chamamos até aqui...
Menina: Quer dizer que a queda das abóboras foi uma estratégia vossa?
Zambujeiro: Pois foi, tu és a nossa única esperança! Nós fazemos parte da história deste lugar, da história destas gentes e da história de uma nação... mas, ficámos esquecidos na História e a nossa história será ela também esquecida e morrerá connosco, com o fim dos nossos dias que está para muito breve...
Palácio: Sabes, estas abóboras têm quase meio século e ainda existem por uma única razão... elas guardam um segredo.
Menina: Verdade?!!! E que segredo é esse?
Palácio: Esse segredo é... - e antes de terminar a frase, o Zambujeiro interrompeu-o.
Zambujeiro: Eu tive uma visão!!!
Menina, Palácio: A sério?
Zambujeiro: Sim!
Menina: E o que viste?
Zambujeiro: Não há tempo para explicar. Tu, menina, tens de fugir daqui!
Menina: Porquê?
Zambujeiro: Vai! Aqui corres perigo.
Ao ouvir isto, a menina foi embora, a correr.


Na manhã seguinte, após tomar o pequeno-almoço, a menina pôs-se a pensar no que é que o Zambujeiro quereria dizer com aquilo.
Menina: «O que será que o Zambujeiro queria dizer com eu ali correr perigo? Provavelmente são as maluquices da idade. Vou ter com eles para ver se está tudo bem.»
E lá foi ter com o Zambujeiro e com o Palácio. Assim que chegou lá, viu imensas máquinas de construção civil, a poluir e prontas para começar a destruir.
Ao chegar perto da área de trabalho, viu um aviso que dizia o seguinte: «Afaste-se. Área restrita. Trabalho de construção em nome de J.B. jr. com data de finalização desconhecida».

Após ler isto entristeceu, começou a chorar e foi embora, mas no caminho continuava inquieta com a conversa. Quem seria o J.B. jr.?
Então pensou que, para ser chefe de alguém, esse homem deveria ser uma figura conhecida e bastante poderoso, por isso decidiu ir pesquisar à Internet, e tinha razão!

J.B. jr. é o diminutivo de Jorge de Barros Júnior VIII (o oitavo), descendente de Jorge de Barros, o cavaleiro que mandara construir o Palácio. Leu também que já estivera preso. Mas então porque é que ele quereria destruir uma coisa mandada construir por um familiar?
Bom, isso ela não sabia, mas tinha a certeza que no dia seguinte iria descobrir e nessa mesma noite ligou a um grande amigo a pedir ajuda. Esse amigo, chamado Tiago, é perito em Arte Urbana e também é skater nos tempos livres. Na manhã seguinte...
Tiago: Então, estás a querer dizer que o Palácio e o Zambujeiro lá ao lado falaram contigo, eles estão em perigo de ser demolidos e precisas da minha ajuda para o impedir, é isso?
Menina: Sim. Ajudas-me?

Tiago: Claro! E também, já não me meto em aventuras e problemas há algum tempo.
Menina: Boa! Preciso que esta noite vás lá investigar, está bem?
Tiago: Entendido. Acho que sei exatamente o que fazer...
Menina: Ótimo! Mas não dês nas vistas.
Tiago: OK - e saiu.
Nessa noite, o Tiago chega a casa da menina apressado e cheio de tinta, com um saco de ginástica à tiracolo e um casaco preto com carapuço.
Menina: Então?
Tiago: Digamos que deixei lá a minha arte...

Menina: Como assim?
Tiago: Então, vandalizei uma máquina e escrevi lá «O J.B. jr. é um frango».
Menina: O QUÊ?! ISSO É O OPOSTO DE NÃO DAR NAS VISTAS! AGORA ESTAMOS FEITOS! *suspiro* Se calhar nem vão reparar... Mas não assinaste, certo?
Tiago: Claro que sim! Uma obra de arte tem de ser assinada. Mas pela tua cara já percebi que fiz mal...
Menina: OK, agora estamos mesmo feitos.
Tiago: E se amanhã lá formos à socapa e...
Menina: Não! Chega de vandalismo! Vamos só ver se já começaram a demolir.
Mas, antes de terem tempo para fugir, foram capturados. Quando acordaram, estavam cara-a-cara com Jorge de Barros Júnior VIII.
J.B. jr.: Ora, se não é a menina atrevida e o Sr. Artista! Como podem ver, eu fugi da prisão e vim para aqui, demolir o vosso estúpido Palácio e aquele Zambujeiro ao lado. E vou construir aqui a minha mansão!
Menina: Mas está a destruir Património nacional e cultural! Acha bem?!
J.B. jr.: A riqueza é mais importante! Agora apreciem a demolição do Palácio e do Zambujeiro.

E antes de carregar no botão para demolir o Palácio e o Zambujeiro, apareceu a população.
Tiago: Já agora, nós não somos os únicos a querer que estes dois fiquem de pé.
Menina: Sabe, este Palácio foi construído por um antepassado seu. Deveria ficar orgulhoso e querer protegê-lo! Mas se o senhor não o faz, nem nós, nem esta população deixaremos que o deite a baixo, nem a ele nem ao Zambujeiro. Caso não tenha reparado, alguém já chamou a polícia e ela acabou de chegar!
J.B. jr.: Nããão! O que é que vocês fizeram??!! Estragaram tudo! Por vossa causa, eu vou preso outra vez!!!
E foi assim, o J.B. jr. foi preso, a menina e o Tiago foram premiados, e decidiu-se reconstruir o Palácio.

Zambujeiro, Palácio: Obrigado!!! Vocês salvaram-nos.
Menina: Não custou nada. Mas afinal qual é o segredo das abóboras?
Palácio: Bom, o segredo é que elas escondem a localização dos túneis de acesso ao Castelo de Pirescoxe! Como demonstraram ser excelentes defensores do património, desafio-vos a continuar esta investigação.
Menina, Tiago: Combinado!

- < BEGINNING
- END >
-
DOWNLOAD
-
LIKE(1)
-
COMMENT()
-
SHARE
-
BUY THIS BOOK
(from $5.19+) -
BUY THIS BOOK
(from $5.19+) - DOWNLOAD
- LIKE (1)
- COMMENT ()
- SHARE
- Report
-
BUY
-
LIKE(1)
-
COMMENT()
-
SHARE
- Excessive Violence
- Harassment
- Offensive Pictures
- Spelling & Grammar Errors
- Unfinished
- Other Problem

COMMENTS
Click 'X' to report any negative comments. Thanks!