

Poetas Peninsulares
Mestres da mesma língua

Créditos:
Poetas Peninsulares - Mestres da mesma língua
Agrupamento de Escolas Monte da Lua (Sintra - Portugal) - alunos do 1.º ano do curso profissional Técnico de Multimédia
Centro Público Integrado de Xanceda (Galiza, España) - alunos do 3.º ano do Ensino Secundario Obrigatorio (ESO)
Coordenação: Laura Filipe & Dolores Díaz Rifón

Índice
Capítulo I - A Idade Média
- Organização da sociedade .............................................................p. 5
- As Classes Sociais e suas funções ..................................................p. 6
- A vida nos Mosteiros e os escribas ................................................p. 9
Capítulo II - Os Cancioneiros medievais
- O Cancioneiro da Vaticana ..............................................................p. 11
- O Cancioneiro da Biblioteca Nacional ...........................................p. 12
- O Cancioneiro da Ajuda ...................................................................p. 13
Capítulo IIII - Os "atores" das Cortes Medievais
- Localização das Cortes Peninsulares ..............................................p.15
- O papel dos trovadores.....................................................................p.16
. principais trovadores......................................................................p.17
- O papel dos jograis.............................................................................p.21
Índice (cont.)
- As mulheres nobres na Idade Média ............................................p.22
- As soldadeiras...................................................................................p.23
. A Soldadeira Maria Balteira .......................................................p.24
- As mulheres do povo........................................................................p.25
- Tres mulleres galegas de armas tomar..........................................p.26
Capítulo IV - As produções poéticas
- As Cantigas de Santa Maria..............................................................p.30
- As Cantigas de Amigo........................................................................p.36
- As Cantigas de Amor..........................................................................p.49
- As Cantigas de Escárnio e Maldizer..................................................p.56
. A Pastorela...........................................................................................p.64
Organização da Sociedade
As Classes Sociais e as suas funções
A vida nos Mosteiros e os escribas
Capítulo I
A Idade Média
Organização da Sociedade
Muitos estudiosos costumam dividir a história da sociedade feudal em dois momentos distintos: a Alta Idade Média e a Baixa Idade Média.
O primeiro momento, entre o século V e o século IX, é o de consolidação do mundo feudal, quando se formam os reinos e se cristaliza a organização social.
Entre os séculos X e XV, a sociedade feudal começa a dar sinais de mudanças com o fortalecimento das cidades e do comércio.
https://www.icatolica.com/2016/08/como-surgiram-os-coroinhas.html

As Classes Sociais e as suas funções
Cuida da vida espiritual da sociedade.
Protege todas as ordens sociais.
Exerce cargos na administração, na corte e no ensino.
Exerce influência política, moral e psicológica na sociedade.
- O CLERO-
As Classes Sociais e as suas funções

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:1300,_Spanish,_Moorish._-_041_Costumes_of_All_Nations_%281882%29.JPG
Ocupa os mais altos cargos na administração e no exército, além de cargos públicos merecedores de títulos (burguesia enobrecida, administrativa de toga).
Detém terras, títulos e isenção de impostos.
É vassalo do Rei e senhor feudal.
- A NOBREZA -

As Classes Sociais e as suas funções
Trabalha, nas terras do senhor feudal (nobre) ou noutro ofício, para pagar os impostos que asseguram a sobrevivência das ordens privilegiadas (Clero e Nobreza).
Para além do trabalho agrícola, pode dedicar-se à pesca, à criação de animais, à exploração da floresta, ao artesanato e ao comércio.

http://mecanizacao2011.blogspot.com/2011/05/o-periodo-de-mil-anos-entre-queda-de.html
- O POVO -
A Vida nos Mosteiros e os Escribas

Depois de louvar a Deus com cânticos e orações, os monges dedicavam-se a tarefas mais terrenas. O trabalho no campo e nas oficinas era igualmente rigoroso, com regras definidas para todos.
A produção dos manuscritos necessitava de todo um trabalho prévio que envolvia os religiosos que viviam nos mosteiros. Era preciso cuidar dos rebanhos, tratar a pele dos animais, cortar o pergaminho, ajustá-lo ao tamanho do livro, coser e pautar as páginas, e, por fim, a encadernação.
Se não tivesse sido o trabalho intenso destes e dos monges escribas e copistas, muitas obras antigas já não existiriam. Os livros eram encomendados e destinados a uma elite erudita e outros eram guardados nas bibliotecas dos mosteiros.
http://repositorio.furg.br/bitstream/handle/1/290/324.pdf?sequence=1
Cancioneiro da Vaticana
Cancioneiro da Biblioteca Nacional
Cancioneiro da Ajuda
Capítulo I I
Os Cancioneiros Medievais
O Cancioneiro da Vaticana

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 391
https://cantigas.fcsh.unl.pt
O Cancioneiro da Vaticana, também conhecido como Cancioneiro da Biblioteca da Vaticana, é um livro compilado em Itália, no final do século XV ou início do século XVI, que contempla 1200 cantigas de amigo, amor, escárnio e maldizer, redigidas em galego-português, encontrando-se, na atualidade, na Biblioteca da cidade do Vaticano.
O Cancioneiro da Biblioteca Nacional
[[Imagem:Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa 1525-1526 - 355 f (2 colns, 31-40 lin.) 28 cm.pdf|thumb|180px|Legenda]]
O Cancioneiro da Biblioteca Nacional, também conhecido por Cancioneiro Colocci Brancuti, é uma coletânea de 1560 poemas de trovadores galegos e portugueses, manuscrito em Itália por seis copistas, no ano de 1525 ou 1526, por ordem de Angelo Colocci, um padre jesuíta, muito interessado na antiga poesia italiana, provençal e portuguesa. Esta coletânea foi adquirida pelo governo português a 26 de fevereiro de 1924, encontrando-se, presentemente, na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

O Cancioneiro da Ajuda
https://www.europeana.eu/pt/item/2063606/POR_280_007
Também conhecido como Cancioneiro do Colégio dos Nobres, o Cancioneiro da Ajuda é a coletânea mais antiga de poesia trovadoresca, datada de finais do século XIII ou inícios do século XIV, escrita em galego-português e ricamente decorada. Nela está reunido um conjunto de 310 cantigas, apenas de amor, anteriores a D. Dinis, de influência provençal e cortesão, registadas em pergaminho, e onde se atesta o caráter cantado, instrumentado e coreográfico destas composições. Este códice encontra-se na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, desde 1832.

Localização das Cortes Peninsulares
O papel dos trovadores
Principais Trovadores
O papel dos Jograis
As mulheres nobres na Idade Média
As Soldadeiras e Maria Balteira
Capítulo I I I
Os Atores das Cortes Medievais
Localização das Cortes Peninsulares

Fonte: McEvedy, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Cia das Letras, 2007
O papel dos Trovadores

O Trovador compunha os seus pomas (cantigas), bem como as melodias respetivas. Pertencia à classe da Nobreza e, muitas vezes, tal como o jogral, predispunha-se a interpretar as suas composições, cantando e dançando. O Trovadorismo teve o seu apogeu entre finais do século XII a meados do século XIV, durante cerca de 150 anos.
http://reflexaoemmusica.blogspot.com/2009/05/trovadores-medievais-cantigas-de-amor.html
PrincipaisTrovadores
Afonso X - (1221-1284) Foi Rei de Leão e Castela, durante 32 anos, e avô de D. Dinis. Foi um grande impulsionador da cultura, tendo sido o responsável pela primeira reforma ortográfica do castelhano, idioma que tornou oficial durante o seu reinado. Compôs as Cantigas de Santa Maria, que se encontram repartidas por 4 manuscritos: Codex To; Codex E e T; e Codex F. As Cantigas de Santa Maria podem ser divididas em 2 grupos: as cantigas de louvor à Virgem, onde são relatados os milagres, e as cantigas que são consideradas hinos sagrados ou orações a Nossa Senhora.

https://pgl.gal/afonso-sabio-escritor-nossa-lingua/
PrincipaisTrovadores
D. Dinis - Rei de Portugal e importante trovador na sua época. Nasceu em Lisboa, em 1261, subiu ao trono com apenas 17 anos e o seu reinado teve uma duração de 46 anos. Era um homem letrado, tendo sido o primeiro monarca português a assinar o seu nome completo e a dar muita importância às artes, principalmente à literatura trovadoresca. Foi um dos maiores e mais influentes trovadores do seu tempo, tendo composto inúmeras cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer, em galego-português. Foi o rei que promoveu a unificação linguística do nosso país, tendo tornado o Português o idioma oficial, em 1290.

https://www.goodreads.com/author/show/7123760.D_Dinis
PrincipaisTrovadores
Airas Nunes - Airas Nunes (. 1230-1293) foi um clérigo e um trovador do século Xlll, provavelmente nascido na Galiza. Foi poeta na corte de Sancho lV de Castela e escreveu em galaico-português. Escreveu sete cantigas de amor, três de amigo e quatro cantigas de escárnio, além de duas bailias e uma pastorela.
João Garcia de Guillhade- Foi um trovador português que nasceu em Milhazes, perto de Barcelos, que se dedicou à escrita em meados do século Xlll. Frequentou as cortes de D. Afonso lll e de D. Afonso X de Castela. Este trovador deixou uma vasta obra escrita, e até hoje conservam-se 53 composições, dos três géneros: amigo, amor e escárnio e maldizer. Estas composições encontram-se nos vários cancioneiros medievais portugueses. É dele a autoria da conhecida cantiga de escárnio “Ai Dona fea, fostes-vos queixar”, e foi ele o introdutor do tema dos “olhos verdes” na lírica portuguesa, com “Amigos, non poss’ eu negar”, temática mais tarde aproveitada por poetas como Luís Camões.
PrincipaisTrovadores
Bernal de Bonaval - Trovador que viveu na segunda metade do século Xlll. Era oriundo da aldeia de Bonaval, perto de Santiago de Compostela e foi dos primeiros a utilizar o galego-português nas suas poesias. Atualmente, conhecem-se 19 cantigas da sua autoria: 10 de amor e 9 de amigo. foi também jogral e acompanhava o rei D. Fernando ll de Castela.
Martim Codax - Apesar de ser um dos poetas mais estudados desta época, pouco se sabe da vida deste jogral. Terá nascido em Vigo (sul da Galiza) e aquilo que o torna tão conhecido é o facto de as suas composições, escritas em galego-português, terem chegado até nós acompanhadas de notações musicais. Do seu repertório fazem parte 7 cantigas de amigo que se encontram no Cancioneiro da Vaticana e no Cancioneiro da Biblioteca Nacional.
O papel dos Jograis

Os jograis eram de baixa condição social e, por norma, eram os executores das composições da autoria dos trovadores. Frequentavam as cortes da Península Ibérica, alegrando os saraus dos palácios senhoriais, ou atuavam na praça pública, vivendo do lucro da arte de cantar ou de tanger versos próprios ou alheios. Alguns compunham as suas cantigas, introduzindo variantes nas composições, e adaptando-as ao seu próprio gosto.
A joglaria é anterior ao trovadorismo e pensa-se que terá tido início na Galiza, muito antes do século XII.
http://trovadorismomedievalufjf2017.blogspot.com/2017/03/trovador-x-segrel-x-jogral.html
As mulheres nobres na Idade Média
As mulheres nobres tinham um papel fundamental na preservação das alianças e dinastias no poder, e o seu casamento era combinado desde a infância para fazer alianças políticas, embora não fosse efetivo até à puberdade.
O marido passava a ter o controlo da vida da mulher, que se deslocava para viver nas suas terras. Existia o matrimónio em segredo, em que um homem e uma mulher consumavam a união; depois tornavam-na pública para fugir aos casamentos forçados, mas era uma opção não admitida pelas famílias. A Igreja, porém, reconhecia-o, para garantir a primazia do sacramento sobre as pressões do poder secular. Os escritos destinados aos confessores contêm muitas especificações sobre o sexo dentro do matrimónio, restrições que se aplicavam, nomeadamente, referindo os dias em que não era permitido manter relações sexuais, e à fidelidade das mulheres, para garantir a pureza do sangue dos herdeiros. O adultério feminino foi castigado com dureza, porque interferia na sucessão legítima, além de ser considerado um pecado de luxúria.

Eram mulheres adstritas à Corte, que tinham como ofício cantar e bailar e recebiam por isso um soldo (um salário), daí o seu nome.
Nas ilustrações do Cancioneiro da Ajuda aparecem dançando, tocando as castanholas ou a pandeireta na companhia do jogral que toca uma guitarra ou uma viola.
As Soldadeiras

A Soldadeira Maria Balteira
María Balteira foi uma soldadeira conhecida através de dez trovadores que lhe dedicaram cantigas de escárnio e maldizer. Nessas composições era criticada por competir com os homens no tiro com arco, saber jogar dados, ser batoteira no jogo, dormir com frades e com jograis, e ser transmissora de doenças venéreas.
Eram tempos em que a mulher apenas podia escolher entre praticar o amor santo, no claustro, ou no matrimónio, longe do prazer, ou ser soldadeira, para desfrutar a vida, embora entrasse numa certa marginalidade. Isto explica a opção de María Balteira que, a pesar de ser fidalga e detentora de património, escolheu um ofício próximo à prostituição.

As Mulheres do Povo
As mulheres ocupavam-se da limpeza da casa, da cozinha, de criar os filhos e de cuidar das pessoas dependentes. Além disso, serviam os maridos, faziam tecido e costura, e ajudavam algumas vezes nos trabalhos dos maridos, fazendo pequenas tarefas; também se ocupavam da agricultura doméstica e de cuidar do gado para o consumo próprio. Às vezes também faziam assistência médica nos partos, como parteiras.
Se ficassem viúvas, muitas vezes eram julgadas como bruxas pela Santa Inquisição que as condenava, sem provas, a arder numa fogueira diante de todo o povo, para ficarem com as suas terras. Quando o homem falecia, tinham que cumprir toda uma vida de luto pela sua morte. No caso de voltarem a casar, o novo marido ficaria com todas as terras e bens que possuíam; de forma que a mulher sempre saía perdendo.

TRES MULLERES GALEGAS DE ARMAS TOMAR
Guillermina Domínguez Touriño e Felicia Estévez Salazar

Este livro retrata a vida de três mulheres lutadoras, muito à frente do seu tempo: Maria Castanha, Maria Solinha e Maria Balteira. As autoras basearam-se nas poucas fontes e referências existentes, em rumores que se ouvem a seu respeito, e na vontade de fazer algo que cheguasse à rua, às escolas, às novas gerações de raparigas e rapazes que têm que continuar a construir um mundo em que mulheres e homens façam dele um lugar mais habitável, no sentido mais humano e justo da expressão.
TRES MULLERES GALEGAS DE ARMAS TOMAR
Guillermina Domínguez Touriño e Felicia Estévez Salazar

A verdade é que, sem estas “mulleres de armas tomar”, muitas de nós não teríamos chegado a crescer nas condições em que o fizemos e o nosso caminho teria sido muito mais penoso.
Guillermina Domínguez Touriño e Felicia Estévez Salazar
Baía Edicións A Coruña. S.L.; N.º 1 edición (5 abril 2009)
Entrevista a Guillermina Domínguez Touriño sobre o livro e sobre a mulher na Idade Média:
https://drive.google.com/file/d/1nvi6rCOtW4B1_02Pf6XdkLljO4kTHzX5/view
As Cantigas de Santa Maria
As Cantigas de Amigo
As Cantigas de Amor
As Cantigas de Escárnio e Maldizer
Capítulo I V
As Produções Poéticas
As Cantigas de Santa Maria
As 427 cantigas de Santa Maria foram compostas para honrar a Virgem. Foram produzidas na corte de Afonso X de Castela, na segunda metade do século XIII. O rei, promotor da compilação, foi autor de muitas das cantigas e das músicas. Também dirigiu o trabalho dos seus colaboradores.
As Cantigas de Santa Maria conservam-se em quatro códices manuscritos com pautas e iluminuras de grande interesse e beleza.
Quanto ao conteúdo, há dois tipos de cantigas:
Narrativas: apresentam os milagres da Virgem.
Líricas: nelas se louva a Virgem. Algumas delas utilizam o modelo das cantigas de amor profanas, pois a Virgem é a senhor que ama o trovador.
Afonso X o Sabio
commons.wikimedia.org

Santa Maria,
Strela do dia,
mostra-nos via
pera Deus, e nos guia.
Ca veer faze-los errados
que perder foram per pecados
entender de que mui culpados
son; mais per ti son perdõados
da ousadia
que lles fazia
fazer folia (1)
mui mais que non devia.
Santa Maria,
Strela do dia…
Amostrar-nos deves carreira (2)
por gãar em toda maneira
a sem par luz e verdadeira
que tu dar-nos podes senlleira;
ca Deus a ti
outorgaria
e a querria
por ti dar e daria.
Santa Maria...
Guiar ben nos pod’ o teu siso(3)
máis ca ren(4) pera paraiso,
u(5) Deus ten sempre goi’(6) e riso
pora quen en El creer quiso,
e prazerm’ ia,
se te prazia,
que foss’ a mia
alm’ en tal compannia.
Santa Maria, ...
Strela do dia
Legenda:: (1) loucura; . (2), caminho, (3) juízo, (4) nada, (5) onde, (6) gozo.
Autor: Corte de Alfonso X o Sabio.
Cancioneiro/s: Cancioneiro Alfonsino.
Género e subgénero: As Cantigas de Santa María pertencem ao género cantigas de louvor, apresentam acompanhamento instrumental e são monódias (canto a uma só voz) seculares de temática religiosa não litúrgica.
Strela do dia
Leitura:
Ficheiro vídeo: https://bit.ly/Strela_dia (versão galega)
Partitura
Iluminura
Strela do dia
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Leitura
Ficheiro áudio: http://poetas-p20.0fees.us/avpoema5.html (versão portuguesa)
Análise temática
É uma cantiga de louvor. Santa Maria é uma estrela do dia porque, da mesma maneira que as estrelas na noite, serve de guia para os caminhantes. A Virgem mostra o caminho que conduz até Deus, faz com que os pecadores sejam conscientes dos seus pecados e intercede ante Deus para que lhes perdoe.
Recursos formais
Cantiga composta por três cobras singulares, constituídas por oito versos, quatro octossílabos e quatro tetrassílabos, com refrão tetrassílabo. Rimam todos os versos em cada uma das coblas e também os do refrão.
Strela do dia
Videojogo “O Mester”
O videojogo “O Mester” parte da tradição musical das Cantigas de Santa Maria e propõe aos utentes desafios musicais com as personagens das iluminuras do Códice.
O jogo foi criado por Carlos Balado Sánchez e Pablo García de los Salmones Gómez, alunos do mestrado em Desenho, Desenvolvimento e Comercialização de Videojogos da Universidade da Corunha (Galiza). O trabalho foi vencedor do game jam “Afonso X e Galicia” atribuído pelo “Consello da Cultura Galega” e pela “Asociación Galega do Videoxogo”.
Ligação para o videojogo: https://ramidreju.itch.io/o-mester
Strela do dia
As Cantigas de Amigo
A cantiga de amigo é um género autóctone, cujas origens parecem remontar a uma vasta e arcaica tradição da canção em voz feminina. Nestas composições uma rapariga exterioriza os seus sentimentos amorosos: de alegria pela proximidade do seu amigo, de tristeza ou de saudade pela sua partida, de ira pelos seus enganos...
Compostas e geralmente cantadas por um homem (se bem que possa ter havido igualmente vozes femininas a cantá-las), as cantigas de amigo põem em cena um universo feminino alargado, do qual fazem ainda parte, como interlocutoras da donzela, a mãe, as irmãs ou as amigas. Formalmente, as cantigas de amigo recorrem frequentemente a uma técnica arcaica de construção estrófica conhecida como “paralelismo”, a apresentação da mesma ideia em versos alternados, com pequenas variações verbais nos finais desses mesmos versos, e são quase sempre de refrão.
Pergaminho Vindel.
commons.wikimedia.
org

Sediam'eu na ermida de San Simon
Sedia-m'eu na ermida de Sam Simion
e cercarom-mi as ondas, que grandes som!
Eu atendendo meu amigo.
Eu atendendo meu amigo.
Estando na ermida ant'o altar
[e] cercarom-mi as ondas grandes do mar.
Eu atendendo meu amigo.
Eu atendendo meu amigo.
E cercarom-mi as ondas, que grandes som!
Nom hei [eu i] barqueiro nem remador.
Eu atendendo meu amigo.
Eu atendendo meu amigo.
E cercarom-mi [as] ondas do alto mar;
nom hei [eu i] barqueiro nem sei remar.
Eu atendendo meu amigo.
Eu atendendo meu amigo.
Nom hei [eu] i barqueiro nem remador
[e] morrerei fremosa no mar maior.
Eu atendendo meu amigo.
Eu atendendo meu amigo.
Nom hei [eu i] barqueiro nem sei remar
e morrerei fremosa no alto mar.
Eu atendendo meu amigo.
Eu atendendo meu amigo.
Sediam'eu na ermida de San Simon
Legenda
v.1. Sedia-m’eu: estava eu sentada.
v.8. nom hei eu i: não tenho ali.
Refão. atendendo: esperando.
Autor: Mendinho
Cancioneiro/s:
Cancioneiro da Vaticana: 438
Cancioneiro da Biblioteca Nacional : 852
Género e subgénero:
Amigo (género)
Barcarola (subgénero)
TEXTO ORIGINAL.
Cancioneiro da Vaticana


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https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=861&pv=sim
Sediam'eu na ermida de San Simon
Experiência musical
Não chegou até nós a pauta original desta cantiga.
Porém, a escritora e cantora galega Estíbaliz Espinosa fez uma versão musical, “uma brincadeira”, com o programa P22 Music Text Composition Generator.
O resultado pode-se ver e ouvir aqui.
Leitura
ficheiro vídeo: https://bit.ly/Sedia_m_eu (versão galega)
Sediam'eu na ermida de San Simon
Análise temática
A cantiga começa com o verso "Sediam'eu na ermida de San Simón". Mendiño conhece bem o cenário escolhido, um peculiar ilhéu da ria de Vigo. Uma moça espera, inquieta, o seu amigo na ermida. O perigo chega quando sobe a maré; ela vê-se sozinha, cercada pelas ondas e teme morrer, pois não tem barqueiro para a socorrer, nem sabe remar.
Recursos Formais
Cantiga constituída por 6 coblas formadas por dísticos hendecassílabos emparelhados, e por um refrão dístico octossílabo. Tem paralelismo, com leixa-pren.
Bailemos nos já, todas três, ai amigas
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
So(1) aquestas(2) avelaneiras floridas(3),
E quem for velida(4) como nós, velidas
Se amigo amar,
So aquestas avelaneira frolidas
Verra(5) bailar
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
So aqueste ramo destas avelanas(6),
e quem for louçana(7) como nós, louçanas,
Se amigo amar,
So aqueste(8) ramo destas avelanas
Verra bailar
Por Deus, ai amigas, mentr'all non fazemos(9),
So aqueste ramo florido bailemos,
E quem bem parecer como nós parecemos,
se amigo amar,
So aqueste ramo so’l(10) que nós bailemos
Verrá bailar.
Bailemos nos já, todas três, ai amigas
Legenda:(1)- sob;(2)-estas;(3)-floridas;(4)-bela, famosa;(5)-virá;(6)-avelãs;(7)-louça, bela;(8)-este;(9)-mentr’al non fazemos-enquanto não fazemos outra coisa;(10)-so’l- sob o qual.
Cancioneiro/s: Biblioteca Nacional (879); Vaticana (462);
Autor: Airas Nunes;
Género e subgénero: Poesia trovadoresca, cantiga de amigo, bailia.
Leitura
ficheiro vídeo: https://bit.ly/Bailemos_amigo (versão galega)
http://poetas-p20.0fees.us/avpoema4.html (versão portuguesa)
Bailemos nos já, todas três, ai amigas


Não é conhecida a versão original. Eis um fragmento da versão de Jorge Croner de Vasconcellos.
https://cantigas.fcsh.unl.pt/manuscrito.asp?cdcant=883&cdmanu=1675&nordem=1&x=1
Texto original

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Bailemos nos já, todas três, ai amigas
Análise temática
Uma donzela convida, através de várias apóstrofes (vv-1 e 7) as amigas para bailar para celebrarem o facto de estarem apaixonadas. Esta é uma condição para se bailar (refrão). As outras são o ser-se bonita (v.3) e bela (v-9). A natureza apresenta um cenário primaveril porque se refere ao florir das avelaneiras (v-2) e o cenário reflete o estado de espírito alegre das donzelas. As donzelas vão dançar enquanto não têm mais nada para fazer (v-13), o que pode sugerir que aguardam a chegada dos seus amigos.
Recursos formais
Esta cantiga é constituída por três quadras com refrão dístico intercalada. É uma cantiga paralelística perfeita em que os versos das quadras rimam uns com os outros e os do resto do refrão também. Quanto à métrica, os versos são hendecassílabos e tetrassílabos (refrão).
Levous'a louçana, levous'a velida
Legenda: Levou-se: levantou-se
Louçana/velida: bela, formosa
Levou-s'a louçana, levou-s'a velida,
vai lavar cabelos na fontana fria;
leda dos amores, dos amores leda.
Levou-s'aa alva, levou-s'a louçana,
vai lavar cabelos na fria fontana;
leda dos amores, dos amores leda.
Vai lavar cabelos na fontana fria,
passou seu amigo, que lhi bem queria;
leda dos amores, dos amores leda.
Vai lavar cabelos na fria fontana,
passa seu amigo, que a muit'a[ma]va;
leda dos amores, dos amores leda.
Passa seu amigo, que lhi bem queria,
o cervo do monte a áugua volvia;
leda dos amores, dos amores leda.
Passa seu amigo que a muit'amava,
o cervo do monte volvia[a áugua;
leda dos amores, dos amores leda.

Legenda: Levou-se: levantou-se
Louçana/velida: bela, formosa
Autor: Afonso X
Cancioneiro/s: Cancioneiro da Biblioteca Nacional; Cancioneiro da Vaticana .
Género e subgénero: cantiga de amigo
Levous'a louçana, levous'a velida
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Manuscritos no Cancioneiro da Biblioteca Nacional
https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1217&pv=sim
Análise temática
Esta cantiga de amigo, paralelística perfeita, constituída por três pares de dísticos hendecassilábicos graves, monórrimos (a última palavra é grave) e refrão monóstico, é, ao mesmo tempo, uma alba, alva ou alvorada («Levou-se», isto é, «levantou-se») que canta o momento do levantar, ao nascer do sol, e um ritual protalâmico, ou de noivado. As três sequências narrativas (o levantar, o caminhar para a fonte, onde a donzela lavará os cabelos, e o encontro amoroso com o amigo) da cantiga são portadoras de uma carga afetiva sedutora e fascinante que o refrão veicula e inculca insistentemente, numa feliz aliança entre modo narrativo e lírico: «leda dos amores, dos amores leda».
Levous'a louçana, levous'a velida
Leitura
Ficheiro áudio: http://poetas-p20.0fees.us/avpoema6.html (versão portuguesa)
Recursos formais
O poema tem estrutura narrativa, por causa da abundância de verbos de ação, isto é, ligados a gestos e movimentos que provocam uma visão dinâmica e atuante da realidade. O presente do indicativo é um tempo cujo modo é o da realidade, do que acontece (presente histórico). A perifrástica IR + INFINITIVO tem o valor aspetual de realização futura da ação, que pode ser imediata ou não (e pode ter também o valor aspetual de realização gradual da ação). Há também uma sequência de ações própria da narrativa: 1.ª) a donzela levantou-se, 2.ª) vai lavar cabelos, 3.ª) passa seu amigo, 4.ª) o cervo do monte volvia a água.
Levous'a louçana, levous'a velida
As cantigas de amor
A cantiga de amor é um género poético em que um cavaleiro expressa o seu amor por uma dona (a senhor). É uma adaptação da canço provençal e segue a teoria do amor cortês, uma transposição ao amor das relações feudais: - a dona é uma mulher nobre e o trovador deve-lhe fidelidade e submissão. Ela é sempre um ser idealizado; possui todas as qualidades e é perfeita, quer no plano físico quer no moral. O facto de ela ser inatingível para o poeta, produz a sua coita (sofrimento), que emerge da indiferença da dona ou a incapacidade do trovador para lhe expressar o seu amor.

Formalmente, a cantiga de amor galego-portuguesa assume algumas caraterísticas da canço, embora seja mais curta e, na maioria dos casos contenha um refrão, o que a diferencia da cantiga provençal que é geralmente de mestria.
http://grupo1liricatradicionalyliricaculta.blogspot.com/p/lirica-galaicoportuguesa.html
A dona que eu am'e tenho por senhor
A dona que eu am’e tenho por senhor
Amostrade-mi-a(1), Deus, se vos en prazer for,
Senon Dade-mi a morte.(2)
A que tenh’eu por lume destes olhos meus
E por que choram sempr’, amostrade-mi-a, Deus,
Senon dade-mi a morte.
Essa que vós fazestes melhor parecer
De quantas sei, ai, Deus!, fazede-mi-a veer,
Senon dade-mi a morte.
Ai Deus! Que mi a fazestes mais ca mim amar.(3)
Mostrade-mi-a, u(4) possa com ela falar.
Senon dade-mi a morte.
Legenda:(1)- mostrai-ma;(2)-senão, dai-ma a morte;(3)-Ai Deus que fizeste que eu a amasse mais do que a mim próprio;(4)-onde;
Autor: Bernal de Bonaval;
Cancioneiro/s: Biblioteca Nacional (1066) Vaticana (657);
Género e subgénero: Poesia Trovadoresca- Cantiga de Amor.
A dona que eu am'e tenho por senhor
Manuscrito original
(Cancioneiro da Biblioteca Nacional)

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https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1083&pv=sim
Leitura
ficheiro áudio: http://poetas-p20.0fees.us/avpoema3.html
(versão portuguesa)
A dona que eu am'e tenho por senhor
Análise temática
O sujeito poético encontra-se em grande sofrimento por amor, pelo que, através da apóstrofe (vv-2, 5, 8 e 10), pede a Deus que lhe deixe a sua amada. Se tal não acontecer, prefere que Deus lhe dê a morte (refrão)- O sofrimento é demonstrado de forma hiperbólica também porque o facto de não ver a mulher o faz chorar sempre (v.5). A mulher amada é caracterizada como a mais bela das mulheres (vv- 7 e 8), a luz dos olhos do “eu”, a razão do sentimento do sujeio poético ser tão intenso, de tal forma que ele a ame mais do que a si próprio, (v-10)
Recursos formais
Cantiga constituída por quatro dísticos com refrão. A rima é emparelhada nos dísticos e a métrica é irregular, predominando os versos dodecassílabos.
Se eu pudesse desamar
Se eu podesse desamar
a quem me sempre desamou
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom poss'eu enganar
meu coraçom que m'enganou,
per quanto mi fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dórmio eu,
porque nom poss'eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais rog'a Deus que desampar
a quem m'assi desamparou,
ou que podess'eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass'en preguntar
a quem me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar, pois ela nunca em mi cuidou;
e por esto lazeiro eu:
porque nom posso coita dar
a quem me sempre coita deu.
Se eu pudesse desamar
Legenda: coita: sofrimento, mágoa; sol nom: nem mesmo; dormio: durmo; vel: pelo menos; en: disso, disto; lazerar: sofrer.
Autor: Pero da Ponte.
Cancioneiros: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Biblioteca Nacional, Cancioneiro da Vaticana.
A 289, B 980, V 567
Género:: cantiga de amor.
Manuscrito original. Cancioneiro da Ajuda


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https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=986&pv=sim
Se eu pudesse desamar
Análise temática
O poeta exprime o seu (impossível) desejo de se vingar daquela que sempre o tratou mal, pagando-lhe na mesma moeda:, deixando de a amar, procurando o seu mal e fazendo-a sofrer. No entanto, este é um desejo impossível, porque a culpa é do seu próprio coração, que o fez desejar quem nunca o desejou. Sem poder dormir, só lhe resta pedir a Deus que desampare quem sempre o desamparou e lhe dê a ele a capacidade para a perturbar um pouco – e assim já dormiria. Ou pelo menos que lhe desse coragem para falar com ela.
Recursos formais
É uma cantiga composta por 4 coblas, de 7 versos (sétimas) octossílabos. É paralelística e de refrão, onde cada estrofe possui um verso que não rima com nenhum outro, mas que rimam entre si. O refrão repete-se no final de cada estrofe, através de paralelismo, Encontra-se ainda um exemplo de leixa-pren, nesta poesia, na retoma do termo “dormiria” da terceira estrofe, que foi retomado a partir do termo “dormio” que pertence à segunda estrofe. O texto é composto de muitos mordobres, que são justamente o elemento que vai trazer a rima para o texto.
cai essencialmente na crítica individual e utiliza a ironia, o chiste e até a linguagem obscena com o intuito de ferir.
Tematicamente, as cantigas de escárnio e maldizer abarcam um vastíssimo leque de motivos, personagens e acontecimentos, em áreas que vão dos comportamentos quotidianos (sexuais, morais) aos comportamentos políticos, Formalmente, as cantigas satíricas tendem a ser de mestria, embora quase um terço das conservadas (31%) incluam um refrão.
As Cantigas de Escárnio e Maldizer

https://gl.wikipedia.org/wiki/Cantiga_de_escarnio_e_maldicir#/media/Ficheiro:Reconquista4.jpg
Trata-se de um género satírico. Nas cantigas de maldizer, o trovador troça das pessoas ou das ações de determinados indivíduos, em termos diretos e «a descoberto», e nas cantigas de escárnio o poeta recorre ao duplo sentido das palavras, criticando e escarnecendo de alguém «per palavras cobertas». Esta crítica
Ai dona fea, fostes-vos queixar
que vos nunca louv´en meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei todavia;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, se Deus mi perdom,
pois havedes tam gram coraçom
qu(e vos eu loe, em esta razom
vos quero já loar todavia;
e vedes qual será a loaçom:
dona fea, velha e sandia!
Ai dona fea, fostes-vos queixar
Dona fea, nunca vos eu loei
em meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já um bom cantar farei
em que vos loarei todavia;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!
Leitura:
Ficheiro vídeo: https://bit.ly/AiDFeia (versão galega)
Legenda: loar: louvar; sandia: louca; coraçom: vontade; loaçom: louvor; pero: embora, ainda que.
Autor: João Garcia de Guilhade.
Cancioneiro/s: Cancioneiro da Biblioteca Nacional, Vaticana.
Género e subgénero: É uma cantiga satírica de maldizer (sátira literária).
Ai dona fea, fostes-vos queixar
Texto original (Cancioneiro da Biblioteca Nacional)



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https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1520&pv=sim
Análise temática
A cantiga parodia o elogio da senhora no amor cortês. Neste texto, uma dona queixa-se ao trovador de que nunca foi louvada por ele em nenhuma das suas cantigas. A resposta dele é uma cantiga em que faz troça dela, com adjetivos como velha, feia e sandia.
Recursos formais
Esta cantiga é constituída por três estrofes de cinco versos (quintilha), predominantemente decassilábicos. Nela podemos encontrar o paralelismo semântico, bem como o mozdobre, através do verbo «loar» («louv’en»; «loar»; «loarei»; «loaçon»; «loei») o que reforça o objetivo do trovador: louvar a «dona fea». Quanto à rima, esta apresenta-se emparelhada, e obedecendo ao seguinte esquema rimático: aaabab.
Ai dona fea, fostes-vos queixar
María Balteira, por que jogades
os dados, pois a eles descreedes?
Ũas novas vos direi, que sabiades:
con quantos vos conhocen vos perdedes,
ca vos direi que lhis ouço dizer:
que vós non devedes a descreer,
pois dona sodes e jogar queredes.
Maria Balteira,
porque jogades
E, se vos daquesto non castigades,
nulh'home non sei con que ben estedes,
pero mui boas maneiras hajades,
pois daquesto tan gran prazer havedes
de descreerdes; e direi-vos al:
se vo-lo oír, terrá-vo-lo a mal
bon home, e nunca con el jogaredes.
E nunca vós, dona, per mi creades,
per este descreer que vós fazedes,
se en gran vergonha pois non entrades
algũa vez con tal hom'e marredes:
ca sonharedes nos dados entón,
e se descreerdes, se Deus mi perdón,
per sonho, mui gran vergonça haveredes.
Legenda: v2. pois - depois, descreer - blasfemar; v5. ca - pois, porque; v8. daquesto - disto, castigarse - emendar-se, corrigir-se; v9. nulho - nenhum; v10. pero - embora, ainda que; v12. al - outra coisa; v13. oir - ouvir; v18. maer - pernoitar; v21. vergonça - vergonha.
Maria Balteira,
porque jogades
Género: Cantiga de escarnio e maldizer.
Autor: Pero Garcia Burgalês.
Cancioneiros: Cancioneiro da Biblioteca Nacional, Cancioneiro da Vaticana: B 1374, V 982

Texto original
no cancioneiro da Vaticana
https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1405&pv=sim
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Maria Balteira,
porque jogades
Partitura

https://cantigas.fcsh.unl.pt/cfcantiga.asp?cdcont=3&cdcant=1405

Leitura
Ficheiro vídeo: https://bit.ly/MBalteira (versão galega)
Ficheiro áudio: http://poetas-p20.0fees.us/avpoema7.html (versão portuguesa)
Análise temática
Cantiga de escárnio: Esta cantiga é de escárnio, pois utiliza uma sátira encoberta baixo dobres sentidos, jogos de palavras, equívocos, metáforas.. A sátira é construída em torno do hábito que Maria Balteira teria de jogar dados, o que não era próprio de mulheres, e as blasfêmias que esta diria durante o processo, fazendo-a ser mal vista pelos demais. Maria Balteira é tratada de “dona”, o que pode fazer referência à sua origem nobre.Também há sátira sexual , pelo sentido que parece ter o “jogo” com os homens.
Recursos formais
Cantiga de mestria. Cobras uníssonas, com rima consonante: a-b-a-b-c-c-b.
Versos decassílabos.
Maria Balteira, porque jogades
É um dos denominados géneros menores. Estas cantigas narram o encontro de um cavaleiro com uma pastora num lugar idílico. É uma composição de origem provençal, embora na lírica galego-portuguesa possa apresentar algumas caraterísticas próprias, como a incorporação de elementos de outros géneros: o ponto de vista da cantiga de amor; o tema, o vocabulário e o cenário da cantiga de amigo ou o caráter narrativo da cantiga de escárnio e maldizer.
A Pastorela

Miniatura do S.XV.
https://ca.wikipedia.org/wiki/Pastorel%C2%B7la#/media/Fitxer:Pastorel.la.jpg
Pelo souto de Crexente
ũa pastor vi andar
muit’ alongada de gente,
alçando voz a cantar,
apertando-se na saia,
quando saía la raia
do sol nas ribas do Sar.
E as aves que voavan,
quando saía l’ alvor,
todas d’ amores cantavan
pelos ramos d’ arredor;
mais non sei tal qu’ i ‘stevesse
que en al cuidar podesse
senon todo en amor.
Pelo souto de Crexente
Ali ‘stivi eu mui quedo
quis falar e non ousei,
empero dix’ a gran medo:
– “Mia senhor, falar-vos-ei
un pouco, se mi ascuitardes,
e ir-m’ ei quando mandardes,
máis aqui non estarei”.
– “Senhor, por Santa Maria,
non estedes máis aqui,
mais ide-vos vossa via
,faredes mesura i
;ca os que aqui chegaren,
pois que vos aqui acharen,
ben dirán que máis ouv’ i”.
Legenda
v.3 - alongada da gente: sem gente
v. 9 -alvor - madrugada
v.15 - quedo - calado
v. 17 -empero - contudo
v. 19 ascuitardes - escutardes
v. 25 mesura - cortesia.
Autor: João Airas de Santiago.
Pelo souto de Crexente
Cancioneiros: Cancioneiro da Biblioteca Nacional (967)
Cancionaeiro da Vaticana (554).
Género e subgénero: Cantiga de Amor - Pastorela
Texto original.
Cancioneiro da Vaticana.
Pelo souto de Crexente
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https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=974&pv=sim
Análise temática
Esta cantiga é uma pastorela, que relata um amor não correspondido entre um cavaleiro e uma pastora . A narrativa da cantiga desenrola-se num cenário de campo, um cenário habitual para as pastorelas dos trovadores do sec.XIII, em que o sujeito poético fala de um episódio entre ele e uma pastora. Incita a donzela a um relacionamento amoroso, mas a pastora recusa a investida, alegando que quer manter a sua honra.
Recursos formais
Trata-se de uma cantiga de Mestria, composta por 4 coblas singulares. Cada cobla é composta por 7 versos - sétima. Os versos são compostos por 7 sílabas métricas (redondilha maior). O esquema de rima e fixo - - ABABCCB - apresentando rima cruzada e emparelhada. Há ainda exemplos de rima toante e de rima consoante
Pelo souto de Crexente
Um agradecimento especial a todos os/as alunos/as envolvidos/as na edição deste ebook, bem como ao contributo dos/as professores/as de diferentes disciplinas.


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