

Aquela parecia apenas mais uma noite normal, havia escola no outro dia e tinha acabado de jantar, como ainda era relativamente cedo decidi praticar o que a minha avó Júlia me ensinara, coser. Ela tinha me dado um grande pedaço de tecido em verde clarinho para fazer o meu próprio vestido (ou pelo menos tentar) e naquela noite comecei a fazê-lo enquanto ouvia a telefonia a tocar na Rádio Renascença. Quando dei por mim já eram horas de me deitar, e assim o fiz, despedi-me da minha mãe que se tinha deixado dormir no sofá e subo para o meu quarto. Finalmente podia estirar-me na minha cama. Mas algo não me deixava dormir, então fiquei um bom pecado deitada na cama a pensar.
- Tenho saudades tuas, pai - disse para mim.
Sinto uma lágrima involuntária escorrer-me pelo rosto e tentei pensar noutra coisa. Visto que não consegui sequer serrar os olhos, decido voltar lá abaixo e beber um copo de leite quente. Quando estou pronta para subir de novo vejo que não desligara rádio. Aproximei-me então para o fazer quando reparo na música que toca, era a música “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso. Algo não estava bem. De repente o telefone fixo começou a tocar.

Quem será a uma hora destas – pensei.
Atendo o telefone e alguém do outro lado da linha estava eufórico
Estou, estou?!? Maria? - uma voz aos gritos perguntou pela minha mãe.
Não, é a filha - respondo
Ah, a Isabel, certo? - disse o homem.
Sim, é ela- respondi intrigada.
Olha, deixa-me falar com a tua mãe, diz que é o António.
Acordei a minha mãe com um ligeiro abanão.
Mãe, está um homem ao telefone que quer falar contigo, chama-se António – disse.

A minha mãe, confusa por lhe estarem a ligar aquelas horas, levantou-se e pegou no telefone. Ela ficou a falar com o homem, era um amigo dela, e as poucas palavras que percebi eram “o quê? Revolução? O Miguel?”. Miguel era o nome do meu pai. Fui rapidamente para o lado da minha mãe e pus-me à escuta. Estava a haver uma revolução para acabar com o estado novo e parece que tinham visto o meu pai. Como era possível???
Sem pensar muito, calcei-me juntamente com a minha mãe e saímos. Ao abrir a porta deparei-me com uma multidão de pessoas e soldados a lutar pelos direitos e que diziam coisas como “O povo unido jamais será vencido”.
Mas apesar de ser um dos momentos mais bonitos que estava a presenciar, eu queria encontrar o meu pai, estaria vivo? Também não queria criar muitas expetativas.
A certo ponto já nem sabia mais em que rua de Lisboa estava, também estava perdida da minha mãe, mas não queria parar de procurar, não podia!
Já estava a amanhecer e tinha de voltar para casa, a minha mãe devia estar preocupadíssima comigo. Mas eu estava perdida. Tentei fazer o caminho de voltar para trás, mas o mar de pessoas cada vez só me empurrava mais. Comecei a entrar em desespero e olhei para os lados na esperança de encontrar uma saída, mas em vão.

- Pai! Pai! Pai! - gritei na expectativa de ouvi-lo a responder de volta
A minha garganta doía e estava pronta para começar a chorar quando ouvi uma voz familiar.
- Isabel! És tu?!? - Conheci a voz a chamar-me
- Pai! Estou aqui! - Respondi na esperança de ser ele
Parecia que estava a falar para o além, mas cada vez tinha mais esperança de que ele estivesse vivo. De repente senti uma mão a puxar-me para trás. Assustei-me. Ao olhar vi um homem com muito mau aspeto, tinha um arranhão na testa e um hematoma no olho, mas, ao reparar melhor vi que era ele. Tinha encontrado o meu pai...
- Isa? - disse ele finalmente.
Pai? - perguntei com a voz trémula.
Os nossos olhos de ambos encheram-se de lágrimas. Abraçamo-nos com toda a força. Foi o melhor abraço da minha vida. Eu estava confusa, mas agora só queria estar com ele
Acho que te devo uma explicação - disse ele depois de algum tempo
Com certeza, mas vamos primeiro sair daqui - afirmei.
Conseguimos desviar-nos das pessoas e parámos num café. Ele explicou que foi torturado todo aquele tempo, estava preso num sítio sem as mínimas condições de higiene e, com a revolução a dar-se, os guardas foram ver o que se passava nas ruas, quando ele viu que se encontrava sem ninguém a vigiar, escapou de lá.
Onde está a tua mãe? - Perguntou o meu pai depois de um tempo
Não sei, eu perdi-me dela enquanto estava à tua procura – respondo.

Temos de a encontrar, tenho imensas saudades dela – disse o meu pai enquanto abri um pequeno sorriso.
Ela nem vai acreditar quando souber – exclamei num tom mais animado.
Fizemos um longo caminho enquanto falámos sobre como toda a gente achava que o meu pai estava morto e ele contava-me as suas experiências enquanto esteve preso. De repente parou um carro ao nosso lado, ao volante estava o tal António que nos ligou e ao lado está a minha mãe.
Miguel? - perguntou a minha mãe, boquiaberta, a olhar para o meu pai.
Sim, mãe, eu encontrei-o, ele esteve vivo durante este tempo – disse emocionada
A minha mãe saiu às presas do carro e deu um abraço ao meu pai, não aguentei e tive de me juntar a eles. Finalmente estávamos os três juntos.
Com um sorriso no rosto, deixei escorrer uma lágrima de felicidade ao perceber que além de ter encontrado o meu pai, o povo estava finalmente livre...


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