
Neste livro poderás ler a 1.ª parte de um conto lindíssimo!
A autora do texto é Cristina Pinto e a ilustração pertence Emília Morais.
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Ulisses, um valente guerreiro, rei de Ítaca, adorava a sua pátria,
adorava navegar no mar. O seu mundo era o mar, um mar que o
arrastou para uma guerra que não desejava, mas também o mar fez
com que ele regressasse, novamente, aos braços de seu filho,
Telémaco e de sua esposa, Penélope. Pois, bem, mas esta história já
se passou há muito tempo…
Hoje, por todo o mundo, há milhares de meninos e meninas que já
ouviram falar do mar, viram o mar (pessoalmente ou através dos
meios de comunicação), ou nele navegaram. E outros que não. Outros
cuja curiosidade é tanta, mas tanta, que anseiam por conhecer o mar e
ver toda aquela massa de água salgada que cobre grande parte da
superfície terrestre, o nosso lindo planeta azul, a esfera que alberga
tantos seres vivos que é impossível sabermos, matematicamente,
o seu número exato.
Proponho-me, então, contar-vos a história de um menino, a
história do Marujinho e, claro, das suas odisseias: imaginárias e reais.



Marujinho era o único filho da senhora Maria e nunca chegou a
conhecer o seu pai. Quando isso aconteceu, crescia como um
feijãozinho na barriga de sua mãe. No seu ventre, a jovem mãe Maria
depositava toda a sua esperança. Fora, desde sempre, um filho muito
desejado. Preparando-se para assumir o seu papel, o de mãe, as
alegrias, a inocência de uma criança eram pensamentos que flutuavam
na sua mente maternal.
Marujinho tinha os cabelos castanhos, encaracolados e uns olhos
azuis, mas com um tom esverdeado, que mudavam de cor: ou eram
azuis ou eram verdes ou tinham as duas tonalidades. A luz
encarregava-se de fazer aquele truque mágico, o de mudar a cor
daqueles esbeltos olhos invulgares. A cor dos seus olhos transporta-nos
para um lugar bem distante do nosso continente, o Arquipélago dos
Açores, e faz-nos recordar a Lagoa das Sete Cidades, localizada na Ilha
de S. Miguel, onde, outrora, um amor impossível entre dois jovens
tão apaixonados, por serem provenientes de estratos sociais

diferentes, cujo amor sob o olhar de quem lhes era próximo
não fora aceite, ambos doridos pela dor da separação, choraram
incessantemente e as suas lágrimas fizeram com que essa lagoa
ficasse com aquelas duas cores: azul e verde. E, até hoje, quem a
visita, recorda-se da lenda que ainda hoje não faz esquecer
os corações mais enternecidos e apaixonados.
Marujinho vivia numa aldeia transmontana pequenina, a aldeia
de Ansiães, na região de Trás-os-Montes. Era uma aldeia serena,
com muito espaço verde, e todos se conheciam. Havia poucas crianças e
ou à pastorícia.
As mulheres, à soleira da porta, bordavam inclinadas, sentadas no
seu mocho (um banco feito em madeira). Por vezes, quando o tempo
assim o permitia, um grupinho de mulheres juntava-se e cantava,
ou simplesmente falava dos seus antepassados.

De vez em quando, as sábias mulheres proferiam algumas
expressões idiomáticas, como por exemplo: ‘‘Está a chover a
cântaros’’, que significa ‘‘Está a chover muito’’; ‘‘Tens a cabeça no ar’’,
que significa ‘‘Estás muito distraído’’, entre outras. Estas e outras
expressões idiomáticas fazem parte do nosso património oral, pois
foram transmitidas de geração em geração e ainda hoje continuamos a
usá-las.
Por vezes, as velhinhas declamavam pequenas poesias e todas
juntas, a cantar, em altos brados, diziam:
‘‘Maria, Maria
o teu amor partiu, solteira não queres ficar,
partiu a tua alegria. reza para que ele volte
e contigo queira casar,"

Na sua aldeia, havia pastores que percorriam quilómetros na
tentativa de encaminharem o seu rebanho para um bom pasto onde a
erva fresca proliferava.
Quando fazia vento parecia que a mesma era escovada por um
pente fino, para a frente e para trás.
O sr. Manuel, por exemplo, tinha umas centenas de ovelhas e
cabras. Ouvia-se o seu assobio, ao longe.
Um dia, algo de terrível aconteceu…
O sr. Manuel, que andava por essas searas, fora apanhado de
surpresa.
Estava um dia abrasador.
Chegada a hora do lanche, ele removeu a rolha da sua cabaça e
ingeriu, de um só trago, muita água. Da sua malinha de cortiça, retirou
um pedaço de broa de milho que sua esposa fizera, umas rodelas de
chouriço, um queijo de cabra e saciou a sua fome.

Com um calor insuportável, entretanto, ele procurou uma sombra e
encontrou-a. Colocou-se por baixo de um sobreiro e acabou por cair no
sono, num sono bem pesado.
Entretanto, o balir do seu rebanho o despertou.
Na altura, como não tinha os seus cães, levantou-se sobressalta-do,
soergueu-se, e lobrigou dois lobos, já no planalto. Contou a sua manada
e faltavam dois belos cordeirinhos, os seus prediletos: a Beteca e o
Patito. Beteca era toda branca, malandreca e em cada patinha tinhas
umas manchas pretas. O Patito era todo preto, mas era tão franzino
que parecia um palito, pobre coitadito.
Escondidos, os lobos estavam muito concentrados e observavam
todos os movimentos do rebanho do sr. Manuel. Como ambos os
cordeirinhos se tinham afastado da sua progenitora, de nome
Felpuda, tornaram-se num alvo fácil para os lobos ibéricos, mamíferos
que, nos dias de hoje, se encontram em vias de extinção, mas que
possuem um olhar que a todos intimida, mas da mesma forma
fascina. Ao longe, pareciam cães mas, vistos de perto, aquelas
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