
CAMINHO DA IMPERFEIÇÃO
POESIA
JOEL HENRIQUES
Às sonatas para piano de Mozart
PRELÚDIO
Melodia da vida verdadeira
Decerto a poemas temporais,
Não requiem eterno que demais
Cresce por todo o braço a poeira.
Longe da obra-prima derradeira
De oceano com fulgores tais
Que para alheio génio é o cais.
Amor por outro chão à minha beira.
Alegre como a poça com a chuva
Por espelhar a pardacenta nuvem.
Transeunte sem breve despedida.
Feliz como o lagar com a roxa uva
Sem lembrança da jorna ou salsugem
Reergo a esperança derruída.
SONATA N.º 1
Allegro
Apesar de acender o azul do céu
Sinto-me ser daqui, do vasto mundo.
Em dó maior pertenço-lhe no fundo.
Sou mais a cor do tempo do que eu.
Se procuro estrelas ao relento
Respiro no quebrar de cada onda.
Toda a claridade é redonda
Ou cantaria a fúria do vento.
Em sobrevoo alado entre nuvens
Nasci neste lugar e nele moro
Sem que as luarentas noites turvem.
Em dó maior a música «soada»
Imita o mar no ímpeto do touro.
Bebo de cada sombra a estrada.
Andante
Para onde o Tejo leva as águas
Caminhava por dentro do outono
Pela cidade de troar medonho
Entre o céu e as transidas fráguas.
Bastava não guardar uivantes mágoas
Ou não estremunhar o fosco sono
Para comprar sonatas de abandono
Na rua com o jornal e hoje alago-as
A mulher tinha sulcos pelo rosto,
As mãos calosas, muitas precisões.
O olhar era azul, azul demais.
Em dezembro me acerco de agosto.
Escutei o fulgor sob os nevões,
Além de mar e mar os barrocais.
Allegro
Depois do vendaval a leve brisa
Soe com o bulir de cada folha.
A manhã esplendente me acolha
Tal como o tropear da onda lisa.
Cada passo que dou as ruas pisa,
A tempestade vai de molha em molha.
Que a desesperança não me tolha
Para a impureza, Artemisa.
Circunvago os olhos derredor
Sensível ao mais ínfimo rangido,
Assobradado por ameno ardor.
A nascente de enxofre fosforeja
Mal enroupada em algar perdido.
Como ela só a laje me proteja.
SONATA N.º 2
Allegro Assai
Reconcilia-me com a dura vida
Dizer tranquilo não ao absoluto,
Desalentado do arguir astuto,
Longe da luz cruel compadecida.
Por entre pinheirais como auriga
Pulsa o coração já sem o luto
Que guardei ao silêncio arguto
Cujo resmonear ainda lida.
Tamanha a alegria ao redor
Onde enlaça o muro o sarmento
Até cair em luz sem estertor
Que não sonho a névoa em élfico
Ou sequer a espórtula avento
Que devo pelo sol a Apolo Délfico.
Adagio
Imitar grande alma é vaidade
E também arquejante escravidão.
O burro ara o campo, menos vão.
Por detrás de um muro, a saudade.
Arremedar o céu é escuridade
Ainda que ao ouro diga não.
Simples, por verdadeira condição
E nunca por falaz simplicidade.
Não há ruas sem casas, e a tarde
Esconde-se por entre nuvens brancas.
No final, cada dia é que arde.
O ser e o não-ser, duas crianças.
Inteiro, só nasci das tuas ancas
E do presente guardo as lembranças.
Presto
Qual de ferir as cordas o som vem
O verbo soa de tocar o chão,
Não sei se no inverno ou verão,
Com nomes ou silêncio, porém
Escutando o calor ou o desdém,
Por vezes o sussurro ou a canção,
O sabor de ouvir sim ou ouvir não,
Ora estar aqui ora aquém.
Como tocar as teclas faz surdir
O que discurso algum sabe dizer
Se choro é na fonte a jorrar.
Por isso me pergunto se o nadir
Desvenda o mistério do ser
Ou a própria matéria do ar.
SONATA N.º 3
Allegro
Quase a completar uma oitava
E no último tom, em si bemol
Sempre pouco à frente ia o Sol
Enquanto no inverno costeava.
A cada passo ágil me escapava
No retumbar cerúleo em rol
Mas não era tamanho o crisol
Que o lume esgotasse a maré cava.
Reino do Fabuloso interdito,
Longe que de tão perto, a magia
Alimentava com o denso mito,
Ele era divino, eu humano
Mas comigo a sós coincidia
A funda pulsação do oceano.
Andante amoroso
O rio espelhara no açude
Meu rosto singular em mundo vário.
Desaguava já pelo estuário
O leito que desdobro em tempo rude.
Sem que noutra imagem se transmude
Ou na azáfama de tom diário
O rio já outrora secretário
Mantinha a fiel mansuetude.
«Rio, leva o retrato em candor,
Entrega-o inteiro à minha amada
Para ela colhê-lo ao sol-pôr».
Ele corria tépido ao sol-posto
Não sei para que obscura madrugada
E eu não era mais do que este rosto.
Rondeau. Allegro
Outrora demandara a claridade
Como quem se arroga as tiaras.
Comigo a cantar ideias claras
Eis que a noite o deserto invade.
Sem que em enseada a treslade
Só o teu coração longe de aras
Locupletou marés antes amaras
Mais do que o ruído da cidade.
Outrora dealbara a cobardia
E no alto o céu, menos azul,
Calava a chuva que do céu descia;
Mas se por outra sombra mais humilde
E sem constelação veio o sul
Foi por dizer o nome teu, Matilde.
SONATA N.º 4
Adagio
Por ruas ou me perco ou encontro
Mas sei que por estradas vivo ou morro.
De palavras amenas me socorro.
Sereno a noite no luar de ponto.
À claridade lúcida não conto
Entre o fundo algar e o alto morro.
Declina devagar, agora corro
E só com as mãos nuas a afronto.
Na distância evoco a amada,
Penteia os cabelos perfumados
Ao cimo da marmórea balaustrada.
E por mais que, poema, a esperes
Leio entre os nomes açulados
Maria Alberta e também Menéres.
Menuetto
Entre a vida e ainda o sonho,
Entre o sonho e a realidade
Certo dia a manhã acordar há de
Subúrbios de hálito tristonho.
No campo ainda vejo o medronho
Para lá da outonal escuridade.
No meio de vivendas, a saudade
Esvazia o céu de que disponho.
Entre a pulsação e a distância,
Entre o longe e o viver aqui
A busca em si terá mais importância.
Soerguerá nas faldas desta serra
Outra que avoeja e entrevi
Como quem se descobre enquanto erra.
Allegro
Onde a multidão teme o algar
Eu danço com a noite adolescente.
Por mais que a pulsação muito aquente
Todo o meu desejo é dançar.
Onde outros não querem chão sequer
Eu escolho o próprio sofrimento.
Saboreio o sal de modo lento
Em nome da verdade e do ser.
O meu sonho maior é o dia a dia,
De escrever só quero escrever
E da música basta-me ouvir.
Por isso não receio a invernia,
Por não ter medo é livre o dizer
E por ser livre agosto há de vir.
SONATA N.º 5
Allegro
Qual habitante de qualquer subúrbio
Olho a realidade ao redor.
Ergue os prédios em sol maior
Pelo ar de bulício e distúrbio.
Irrompe a multidão em modo estúrdio.
Braveja o luar multicolor.
Quanto a outra Musa, o alor
Tolda o paraíso e aturde-o.
Vejo muro a muro os grafitis
Em cada carruagem do comboio.
Sílêncio, é no grito que existes.
Revelas com a voz o tempo vário
No meio do trigal sem qualquer joio
E tange na lonjura o campanário.
Andante
Vi na periferia a beleza
Desenhada no voo da gaivota.
À paisagem da urbe tão imota
Toda a minha alma ficou presa.
Olhei nos arrabaldes com surpresa
Caminho e verdade sem ter rota
E de muitas palavras sobrelota
A lira outra página ilesa.
Veio aos borbotões com brando Amor
O que não contemplara em Lisboa
Na avenida de Roma desigual.
Vá ela para longe, aonde eu for
O grande albatroz me sobrevoa.
Cada rua se chama Portugal.
Presto
Ouvia o comboio há vinte anos
Sempre que pela urbe perpassava
Com o grande rugir da sombra cava
Por dentro de invernos desumanos.
Hoje depois de inumeráveis danos
Lembro a incandescência da lava
Que o olhar campestre inflamava
Para lá de horizontes mantuanos.
Ouvia há vinte anos o comboio
E muito me espantava o estridor.
Agora é diferente o que enlaço.
No silêncio ameno me apoio
Tal como na infância, Bramidor
Era calmo outrora do terraço.
SONATA N.º 6
Allegro
Voltei às azinhagas que perdi
Em sonho ou em vago pesadelo.
No presente de novo as desvelo
Com o chão na lembrança e em mim.
Hoje, o seu traçado, aprendi
E o aluvião de percorrê-lo
É como reaver o Sete-Estrelo
Com princípio, meio mas sem fim.
Ao dormir as vielas eram escuras
Como se acordassem ao relento
O sono que a vigília requer.
Tornei à procelária sem agruras
E de modo alado a aquento
Como quem reencontra o próprio Ser.
Rondeau en Polonaise (Andante)
Entre catos e ervas adventícias,
Hirsuto, onde a claridade erra
Descobri-me nas faldas de uma serra
No meio da ausência vi blandícias.
Ao cimo da travessa das olaias
Esgueirou-se um gato entre latidos
E lembrei-me de séculos transidos
Em áulico estrépito ou gandaias.
Entre leira e chã enregelada
Eu podia olhar para a montanha,
Veria casas de frugal sobrado
Como quem no verão demora o nada
E andar cabisbaixo já desdenha
Com mar, terra e céu por todo o lado.
Tema com variazione
Volutas com motivos naturais.
O fundo é do tom da terracota.
Som ou desenho, a dança é imota.
Roxo, verde, azul, dourado cais.
Letras redondas gritam por demais.
Voeja pelo ar uma gaivota.
Palavras semoventes como rota.
Auscultadores a tocar o lais.
Um rosto de olhar amendoado.
Vultos corpo a corpo ao redor.
Pulsar de diamante entre penumbras.
Ritmo que vem do chão mas em desfado
Toda a sombra tem a mesma cor
E a cor do arco-íris são as sombras.
SONATA N.º 7
Allegro com spirito
Sem me afervorar a jeremíada
Cultivo a inquirição disciplinar.
Relato, plumitivo, cada esgar
Distante do aparo da Ilíada.
Sobre mim o clamor se encarniçava
Como o hipogrifo infernal
E congestionava o umbral
A turba a ruflar vulcão de lava.
Avezado a hórridos fraguedos
Não sei já quem brandia a cadeira
Ou quem admoestei com a voz meiga.
Em Musa decantada e sem medos
Fiz rosto à refrega quadrilheira
Por ervaçais da vicejante veiga.
Andante, un poco adagio
Afistulado de atroz gangrena,
Debulhado, o discípulo deploro.
Já todo convulsivo, logo o coro
Ao orco purulento o condena.
Bem longe de ser homem de palestras
Não me encasulei na quintarola,
Todavia Calíope consola
De outras penas em fulgor canhestras.
A escumar, com olhos coruscantes
Para a atentatória tão dura
Dementou-me o fumo do turíbulo.
Em vez de justiçar os litigantes
E como lazarenta criatura
Levarei este canto ao patíbulo.
Rondeau. Allegretto grazioso
Andarilho, errante almocreve
Mísero, olheirento, ulcerado
Mortificou-me outro, emparceirado
A conclamar agravo arquileve.
Se depois do impante destempero
O vão descaroado embrandeceu
Encardumou-se o alvar escarcéu
Até ensarilhar em brado fero.
Do destrambelho lavro o repertório
Rouquejante da prédica airosa,
Detenha-me ou não sobrançaria.
Sem esmorecimento, o palavrório
Abaixo assino em hora afrontosa.
Outro cante o lugar, enflore o dia.
SONATA N.º 8
Allegro maestoso
Valor heroico onde alcantilei
Lugar celestial, sabedoria,
Desejo a prumo ou boçal meio-dia,
Verão, brandura, miserere mei.
Lealdade, temor a outro rei,
Merecimento de Raquel ou Lia,
Orbe celeste isento de aporia,
Nevão, alvura, miserere mei.
Varão sanguinolento das Termópilas,
Virtude ou estrela ou parlenda,
Galhardo cavaleiro sem ter lei,
Lembrança ou olvido de Leónidas,
Lapela a impar nobre comenda,
Sombras de sombras, miserere mei.
Andante cantabile com espressione
O rio leva harpas, eu alago-as,
Sobressaltei os sonhos desta vida.
A cidade boceja entorpecida.
De tarde dormirão ainda as fráguas?
Hora a hora, a todas elas trago-as
De pálpebras abertas para a lida.
Nuvens cobrem a serra oprimida
E vão comigo luarentas mágoas.
O azul do verão a alastrar-se
Doura trigais e vinhas ao relento.
O Sol outrora baço ergue asas.
Rebanhos de manhã a conjurar-se
Sorvem o bebedouro pardacento
Desacordem em vão as pedras rasas.
Presto
Mundo fora do sal inominado,
Quem ousa revelar o que ensina
A loucura, criança tão divina
Que muda o estuário em treslado?
Por caminho de álamos copado
Dança e rumoreja cristalina.
Quem mais arriscaria ser ardina
Do chão que se rodeia de cuidado?
A chuva pela rua cai lustrosa,
Frutos nascem do sol e também dela.
Daí vem o verão e não a sós.
Terra, água, fogo, ar e Rosa
E o salto por cima da cancela.
Quem dirá tal embargo com a voz?
SONATA N.º 9
Allegro com spirito
Depois do aguilhão, o redondel.
Do sonho nada há que eu espere,
Pedestal, nome, flâmula sequer,
Apenas este ímpeto fiel.
Por mais que o temor ainda vele,
Por mais que o luar me exaspere
Por tudo já passei e já não quer
A musa mais que livro de cordel.
Escuto ao relento as cegarregas
E repouso em noite de verão.
Hesita em parar, o entendimento.
O labor desviara-me às cegas.
Por ele, transeuntes mudos vão
E o ser move a vida que alento.
Andante com espressione
O desamor da vida com o berço
Do cargueiro cercado pelo mar
Diz-me que esta voz há de acabar
E basta-me sabê-lo; se o mereço
Porque me aparto indiferente ao terço
Ou se Vicente há de ou não pousar
No duelo entre a terra e o ar
Importa-me o chão; se desconverso
Por meio de palavras em que cismo
Com elas afaguei hoje um gato,
Lobriguei-o ao fundo desta rua
E não sei do mais leve cataclismo
Em decantar no fim do que relato
O dia a dia com a lira pura.
Rondo. Allegro
Certo dia falou na minha aldeia
O grande romancista Saramago.
Hoje não sonho ou lembro, só divago.
A voz não é do povo, é plebeia.
Ela não é de todos, mas ideia
Que mostra à multidão rosto pressago,
Não esconde mistério de Mago,
Transborda o ardor da Citereia.
Noutra data escutei já na cidade
O mesmo autor do Cerco de Lisboa
E de lá regressei tonitruante.
Hoje, só este sol me persuade
De que vale a pena, embora doa
Rimar de forma plena, a jusante.
SONATA N.º 10
Allegro moderato
As vogais tão abertas de Eugénio
Quase albergariam o verão
Mas à fonte iria na estação
Beber o que recusa o milénio.
O que até me nega o decénio
Ou quem devia ser o meu irmão
Mas ao pomar iria como vão
Muitos colher na árvore o prémio.
Cairia no sono com a noite
Porém acenderia muitas estrelas,
Olvido do incêndio cruel,
E por mais que em vogais eu me acoite
Jorraria contente só de vê-las
O segredo contido do cinzel.
Andante cantabile
Há sonhos que de dia são a noite
E outros que de noite são o dia.
Por isso de manhã me calaria.
Por isso no negrume me afoito.
Há sombras tão amenas e caiadas
Que ao sol veranal me ajoelho
E clarão tão brilhante que do espelho
Exila as nereidas e as fadas.
O pesadelo vão e diuturno
Só findará de vez com o silêncio
Que mora no Além-literatura.
Porém o devaneio mais noturno
Por meio da palavra o condenso –
Lira, das invenções, a mais impura.
Allegreto
Os sonhos que avivento dão a paz
Aos outros a bater na pedra dura
E os sonhos que morrem, a brandura
Que rodeia o álamo audaz.
Sobre eles voam Alcióneas aves
Mais do que sobre o chão e as colinas.
Desta pátria, vejo ambarinas
As letras em vocábulo, suaves.
Quem sou eu para julgar alheio sonho
Por ele se tornar ou não real
Ou até por sonhar ou não sonhar?
Ao que vive a moral não sobreponho
E o desejo que morre, afinal,
É mais espaço aberto para voar.
SONATA N.º 11
Andante grazioso com variazione
O silêncio amo do subúrbio,
A brisa a debulhar cada espiga,
Morena e suave rapariga
Que do vento amansa o distúrbio.
Malgrado a violência perturbe-o
Ou erga os andares viga a viga,
Enquanto o centro em salvar periga
O mar soa aqui em cada búzio.
Antes de ver a estrela da manhã
Arrulham já as pombas no quintal,
Acorda-me o cântico do galo.
Por esta hora funda e temporã
Amaina outra vela, o céu igual,
Esta, toda se mostra se a calo.
Menuetto
A ler o Gil Vicente e os Lusíadas
Tendo da condução o alvará
Ciganos vão vender a Massamá
Panos de muitas cores em miríades.
Marcam o dia a dia as Ilíadas
Mas também o que falta ou o que há,
Importa que eles vão a Massamá
Não menos que a tuba dos Lusíadas.
Voltei às minhas tendas, sou errante,
Tenho a condição da transumância.
Liberta-me a estrela do pastor.
Tal como eles dançam também cante
Até perder-me em qualquer distância
Depois de ler no céu outro alvor.
Alla Turca (Allegretto)
Entre a terra e o céu, febricitante
Tateio a densidade da sonata.
No seu rigor nota a nota exata
A primavera não está distante.
Pela janela vejo-a adiante
Como algo que a música dilata
Mas deixo no olvido de uma ata
O que é para as pombas deslumbrante.
Pudera ter o claro gorjear
Que entra com a luz pela manhã
Sob a ameaça de aguaceiro.
Ao menos estas aves a piar
Saúdam a alvura como irmã
E o sol rompe no céu mais verdadeiro.
SONATA N.º 12
Allegro
«Antes na terra ser escravo de um escravo
Do que no ar o rei de muitas sombras»
Dizia Homero entre garças ondas
Nas quais a proa breve ainda lavo.
Era então o Hades o agravo
E as letras mais brancas e redondas.
Hoje o ecrã da fama e de mondas
Nem sequer dá o chão se eu o cavo.
Se puder escolher mondas ou fama
Prefiro ser cortado como ervas
Do que lembrado em alvar efígie.
Ainda se olvida como brama
O arvoredo em manhãs primevas
Mas o eterno, esse a morte exige.
Adagio
Do Além não cobiço o destino
Ou depois do efémero o que dura
Apenas o conforto e a ternura
De um olhar sem bruma, cristalino.
Cansa-me existir ao som do sino
Embora entre a fonte e a lura
Quanto mais ser para sempre porventura
O perdão desta mágoa de Aretino.
Não quero assombrar como fantasma
Cada recanto do luar argivo
Ou reclamar de novo o que tive.
Aqui não tenho alma ou miasma.
Na poesia não estou morto ou vivo,
É só esta palavra o que vive.
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